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terça-feira, 27 de abril de 2010

Sozinho

 "Alô. No momento não posso atender. Deixe seu recado após o sinal..."


 - Carlos, Carlos, você está aí? É Nina. Tem um mês, quase, que cheguei ao Brasil e você sequer me ligou...O que aconteceu? fala comigo, por favor. Me liga. Beijo.

***

 Depois de algum tempo, acostumei-me com a ausência da Nina. experimentei um sentimento que, no fundo, é até bom.Descobri que além de estar sozinho, estou comigo. Foi por isso que acabei passando um tempo em Angra. Nessa época do ano, agosto, não tem muita gente em veraneio, até porque é inverno. Só moradores, o mar e mais nada.Fiquei instalado numa casa antiga, que minha família comprou quando ainda eu era bem pequeno...

domingo, 3 de janeiro de 2010

everythin' means nothin'

É.
Depois de tantas sensações quais não foram descritas com o verbo, depois de tantos momentos que não foram registrados pela máquina de escrever e sequer pela tinta de uma caneta - mas sim pelos olhos, pele, carne - ele, que já havia, pelo menos pensado ter superado o retrato vivo do ontem, recebe a notícia que não poderia chegar: Ela está nos braços de outro. Outros braços. Que não são os seus.De imediato se riu e achou bom. Ela merecia. Era o que Carlos achava do peito pra fora.


Chega em casa. Vê a foto daquela que não é mais sua - porque nunca o foi, visto que todos nascem livres, mas isso não vem ao caso. O caso é que ela não era mais sua e ponto. Escreve pra ela. Mas escreve dando felicitações de ano novo e outras formalidades mais. Não era isso. Carlos acabou por trocar o papel pelo peito e escrevera tudo o que gostaria de dizê-la dentro dele. Tudo pra não aguar o amor alheio, que podeira ser o seu...

Tem uma sensação estranha pelo corpo. Uma corrente de ar que passa pela garganta e todo o resto do corpo. Senta-se no terraço e olha para o céu que está avermelhado. Não lembra de ter visto lua. Madrugada.

" everythin' means nothin' if i ain't got you..."

Ele, uma música ao fundo e o céu vermelho de meia noite. Os três dentro de um mundo enorme e vazio. Carlos sabia o que estava acontecendo. Só não queria entender...

terça-feira, 28 de abril de 2009

Um fragmento que, não propriamente, fará parte da História.

-... parece-me que há um delírio... como em uma febre alta, um estado que transcende a lucidez, uma espécie de sonho, confuso.
Pega a caneca de louça vermelha. Põe o café.Toma todo o café da garrafa, lê sem atenção a correspondência que está há três dias em cima da mesa da cozinha.


De repente, uma fração de lucidez e possível indignação sobre a vida
e ...
a sensação de que tudo que foi feito não surtiu efeito,
em vão...
decepção! por não ter as coisas e pessoas do modo que imagina e espera. Relê a correspondência. Era uma carta da Nina dizendo que ficaria por mais um semestre em Madri porque era linda e porque tinham renovado o contrato dela por mais seis meses.

- Merda!

Depois de uns minutos disse para si, mas olhando para a carta:

- Que bom que estão gostando do seu trabalho. Você tem talento...talento para me deixar puto nesse buraco. E ainda vamos nos casar...


Indignou-se com a capacidade de tentar cobrir a carne viva, exposta da vida real com fantasias, sonhos. Quando se depara com o real - que choca-, o peito bate com disritmia...

"... tudo aqui é muito lindo, Carlos. Você precisa vir pra Madri. As coisas acontecem aqui. Sabe que nem sinto saudades do Brasil?..."

O incômodo, a dor que é a própria vida. Aqui, Carlos deixa de sonhar:

- O dia, lá fora, no mundo, está tão bonito. Todos felizes com a chegada do circo, pensou. Era como se o amor tivesse chegado com o domingo. O domingo que parece o último dia. Último, solitário, frio, vazio, humano. - É o domingo. Disse para si.
- O meu domingo chove... o do resto do mundo, não.E em Madri...
...
Confusão mental. E em um surto causado pela dor: Delírio. Mais. Pega a faca e, impulsivamente, faz ponta num toco de lápis esquecido na fruteira com três maçãs, uma banana apodrecida, uma laranja mofada, papéis velhos e cigarros apagados:

Com minhas tolas incertezas – tantas
- teci a mortalha do corpo em mim ainda vivo.
O corpo não comigo é sopro
Que se pode pegar com mãos não.
Vida fio de navalha, corta corpo vil e sangra.
Esvaiu-se alma, riso resto.
Acabou.

Confuso e indignado com o próprio ser acaba por matar a poesia que nele também é viva, parte dele, com a existência da verdade – mesmo ela sendo difícil de se ver - . Põe a poesia como um entorpecente do ser poeta, que de nada vale, a poesia. A não ser para embriagar a alma em farrapos...

Vem à tona todos os sentidos misturados, como se fossem eles - os sentimentos e eles, propriamente - um só. Sinestesia. Senta em frente à máquina de escrever, que fica numa mesinha de madeira maciça em frente a janela e escreve, de pés descalços, sem camisa, em vermelho:

- Por quê?

Auto pergunta-se, depois de tanto sentir.
já entorpecido de si, ameniza a própria dor de ser. Bebe café. A alma,lágrima.
Eis o ponto cego: a dimensão de dentro do próprio ser. Ele, dentro, que é a própria confusão, o acidente de si mesmo.
a vida esvaindo-se, o sol apagado pela boca do anjo que o engole e leva: leva a luz e deixa o vazio - de novo -, o frio, o anti-ninho. A morte.
despede-se da vida, de si mesmo afogado nas suas próprias verdades...na sua própria dor, na sua própria vida.
Docemente. Mais um dia, a vida o matou...

Passam-se sete meses

: agora, que não sou mais um feto, que não tenho a proteção de um ventre e todos os cuidados maternos intra-uterinos, sou impelido a respirar um ar pesado e sujo, de um mundo torpe e caótico que também ajudei a fazer. Um mundo que odeio com tanto amor. Um mundo que antes de me deixar vivo, me mata, se não me movo. É preciso sair do útero porque ele te trai. Se ficamos por pouco tempo, nos tiram a maturidade e somos cuspidos faltando parte. Se ficamos por mais tempo, nos cospem além de maduros.Como frutas mofadas e podres. A única possibilidade humana de ser vivo é ficar fora do útero e deixar de ser completo. É machucar-se, ter faltas, vazios, desejos, risos. E doer. Por isso, decidiu que não poderia mais ficar dentro de casa nem mais um minuto.
Do jeito que estava foi porta a fora.

-Eu mesmo cuspi-me do útero-casa, assim. E com o instinto de animal que sou, andei até achar o mar. E ali estávamos os três:
o mar, o mundo, Eu e mais ninguém.
senti o infinito tão intensamente solto que invejei mais uma vez(porque invejava sempre!)o mundo, o mar e o universo. Isso é uma injustiça maior do que tudo.
Eu não quero acabar um dia. Não.

Carlos ficou ali, entre o mar e o mundo por alguns minutos. Até que o mar urrou para ele em forma de ressaca, como se estivesse expulsando-o dali, como se o dessesse:

- Vá embora! Saia! Não se aproxime!

Carlos não se intimidou com o mar e urrou pra ele também. Agora, eram dois leões e o mundo.
Carlos atacou o mar de peito aberto, e como toda fera tem presas, o mar mastigou Carlos inteiro e Carlos, Carlos batia no mar, dava-lhe patadas, urrava: mais. Neste ínterim, o mundo estava lá e não fazia nada porque não sabia fazer nada além de ser mundo.
Mar é bicho brabo e Carlos sabia disso. Só que Carlos é bicho traiçoeiro. Pior que isso, é bicho-homem. Mas depois de tanto um bater no outro e outro bater no um, suas feridas vazaram e o líquido quente de Carlos e o líquido gelado do mar se misturaram e formaram uma pasta quase homogênea. O sangue do mundo.
O bicho-mar, cansado, cuspiu o bicho-Carlos no mesmo instante em que ele cuspira-se do mar. Saiu da boca do mar. Peito aberto e arranhado, seus cabelos lambidos. Cheio até a alma de areia. Seu corpo e todo resto lavado de água, sal e sangue.

-Andei devagar até a areia e parei. De pé. De frente pro mar. Como antes.

Sentiu a arrebatadora ventania fria dos dias de agosto. Percebeu que seu corpo, quando lutava com o bicho-mar e consigo, era verão. Fora do mar, seu corpo era inverno como o mês de agosto.
Sentiu frio de arrepiar a nuca, escamar a pele, bater o queixo e doer as articulações:
estava feliz.

Após reconhecer a natureza em si e reconhecer-se nela, foi. Andou pelo mundo, que no final das contas, também era ele mesmo.