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sexta-feira, 30 de abril de 2010

Inquietude


 - "O que me faz mudar de ideia? "A inquietude.
"O que me faz ser assim...[?"] são os outros. Os outros do mundo. Os outros dentro de mim. Tem muita gente aqui.[bate com a ponta do dedo indicador na cabeça]
"O que me faz ficar aqui? " Ahahahahahahahahahahahaha! – Todos eles! [aponta para as  outras pessoas] É por isso que brinco de ser. É por isso que eu sou um ator. Mas isso não me basta. Brincar de ser não é ser verdadeiramente. Então, ando por aí, me mutilando a aparência, o pensamento. Sufocando algumas vontades, libertando outras pessoas de dentro de mim, estuprando a ingenuidade e a pureza-nossa-de-cada-dia. Ando por aí me jogando no mundo, aviltando meus princípios, reinventando uma maneira cínica de estar vivo. De sobre-sair nessa massa densa que é o mundo.
Quero ser perceptível até aos olhos dos cegos. Quero caber no universo - meu corpo não é o meu número. Minha língua é maior do que a minha boca e as palavras não aguentam dentro dela. Sou maior do que eu mesmo.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Sozinho

 "Alô. No momento não posso atender. Deixe seu recado após o sinal..."


 - Carlos, Carlos, você está aí? É Nina. Tem um mês, quase, que cheguei ao Brasil e você sequer me ligou...O que aconteceu? fala comigo, por favor. Me liga. Beijo.

***

 Depois de algum tempo, acostumei-me com a ausência da Nina. experimentei um sentimento que, no fundo, é até bom.Descobri que além de estar sozinho, estou comigo. Foi por isso que acabei passando um tempo em Angra. Nessa época do ano, agosto, não tem muita gente em veraneio, até porque é inverno. Só moradores, o mar e mais nada.Fiquei instalado numa casa antiga, que minha família comprou quando ainda eu era bem pequeno...

terça-feira, 13 de abril de 2010

Estranho

Acordou. Como todos os dias faz. Não por querer. Mas porque a vida exige que você acorde: exige que você levante da cama.
Tudo lhe parecia tão confuso. Não sabia mesmo se fazia parte daquele lugar. Naquele dia, ele acordou de um jeito diferente. Como não fazia todos os dias...
Acordou com um nó, não sei. Uma vontade de chorar. Uma tristeza que não sabia de onde vinha e porquê vinha. Levantou o tronco da cama e se pôs sentado. Nu, com o lençol branco por cima do sexo. Sentou curvo, como se fosse ele “O Pensador”, de Rodin.Tentou descobrir, sem sucesso, a causa de tanta tristeza. Do jeito que estava foi. Pôs-se em frente ao espelho grande que havia no quarto. Gostava de espelhos. Mas sentiu vergonha e assombro, naquele dia, de ver tanta estranheza. E ficou ali, sem muito se mover, olhando, olhando, como quem quisesse descobrir mais de si. Mas é que não conseguia.Então, fechou os olhos e tentou olhar para si, por dentro. Não via nada. Via o nada. Engoliu-se a seco. E quando abriu os olhos: chorou.
Era um silêncio maior do que ele. Intoleravelmente maior do que ele. Ali, naquele quarto de apartamento, ele brincava de construir um futuro para si, de construir uma identidade, um rótulo. Um quarto de um futuro graduado em - o quê mesmo? - ah, sim, Medicina. A Medicina: "Arte e ciência de curar e prevenir as doenças.". "A mais nobre das profissões", pensava até então. Ter a habilidade de curar doenças e salvar vidas, por assim dizer, era como se ele fosse o próprio Deus. Mas era um deus antropomorfo, bem pintado. Um deus de gesso. Um deus que se se é quebrado esfarela e só se tem o oco. Então, ele era um deus morto.
Sentou-se de fronte ao espelho e chorava consigo mesmo, talvez de medo, talvez de vergonha. Talvez porque era ele mesmo. Ou não. Pode ser que não fosse ele mesmo. Pode ser que ele fosse todaquela nomenclatura de futuro-doutor-na-família. Mas a nomenclatura - descobriu ele - a nomenclatura que era de gesso. E o gesso quebrou, virou pó e o oco era a sua personificação.
Confuso, repetiu para aquela figura estranha do outro lado do espelho que, por incrível que parecesse, era ele mesmo:
_ Eu sou Caio Albertini, tenho 25 anos. Estudo medicina. Quero ser médico e...eu não sou isso que estou vendo. Eu não isso, eu não sou. Não. Eu não isso. Eu não sou isso. Eu não isso. Eu não isso. Eu não isso. Não. Eu não sou. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Eu. Eu sou eu. Eu sou eu. Eu sou eu. Eu sou eu. Eu. Eu sou eu. Eu sou eu. Eu sou eu. Eu sou eu. Eu sou isso. Eu sou horrivelmente isso.
Tomou banho. Vestiu-se. Comeu algo e saiu.
Entrou no mundo que, até então, jurava não fazer parte. No meio de tanta gente ansiosa para atravessar ficou. Comungando da mesma ansiedade, esperando o sinal vermelho, cor que gostava. Sinal vermelho. Foi atravessado com os outros corpos apressados e engravatados.
Procurou um amigo. Mais velho. Médico.
- Cara, estou doente. Você precisa me receitar alguma coisa. Me examina. Me encaminha pra qualquer coisa. Você precisa fazer alguma coisa comigo. Eu estou doente.
O amigo examinou. - Pressão arterial 12 por 8, normal. Respira. Solta. Batimentos normais. Muco, respiração, coloração das gengivas, íris. Tudo normal. Você não tem nada.
- Não é possível...
- Sim, é possível. Tão possível que você está sem nada. Está limpo.
Caio não acreditou. Saiu do consultório, deixando no ar aquele encontro pra tomar uma cervejinha, mas que nunca ocorreria. - Vamos marcar uma cervejinha qualquer dia desse, caio? Só pra esfriar a cabeça.
- vamos sim! Te ligo. Um abraço, cara!
- Não é possível. Não é possível...tem alguma coisa errada. Eu sou a coisa errada. Eu sou o meu erro. É isso!
Caio não foi à aula, como também não ligou pra namorada e muito menos quis qualquer outra coisa, além de.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Telefone

- alô.

- Não precisa falar nada é que eu não quero ficar sozinho sempre detestei essa ideia de ficar sozinho eu queria que você não fosse embora que você não me deixasse eu sei que não sou o que você queria sonhava mas eu tô aqui inteiro pra você e só de pensar na possibilidade de você não mais existir já fico desesperado por favor não me deixa aqui sozinho eu tô te implorando não me ignora tudo bem não precisa falar nada comigo nem me olhar deixa que eu faço isso eu juro que não vou te incomodar mas é que eu preciso eu preciso de você acredito que você nem tenha me percebido mas eu te percebo eu te vejo eu te tenho dentro de mim por favor não vá embora você pode achar isso ridículo até é ridículo mas fazer o quê eu não sei ser outra coisa eu dependo de você eu amo você por favor não me deixe aqui não desligue o telefone eu eu desculpa estou tomando o seu tempo você é tão linda e não precisa disso eu só queira te dizer que não está sozinha eu estou aqui mas eu só queria isso mesmo que você soubesse que eu existo mesmo não me vendo agora joga esse frasco no lixo

Ela engoliu a seco aquelas palavras, aquela voz desconhecida que silenciou o mundo. O telefone desligou. Pegou o frasco. Jogou na lixeira. Hoje, mais uma vez, Ana desistiu de acabar.

Entre-corpos


Já não era inesperada toda aquela onda de desejo sobre o corpo alheio. Muito menos óbvia a vontade de mergulhar de peito aberto às suas pulsões freudianas. Óbvio não era mesmo. A cada vez que se deparava com aquele corpo em sua frente, era como se sua fome de fera aguçasse de tal forma, que não conseguia assimilar mais nada no mundo, além de sua presa. Mais intensas eram as inúmeras descargas elétricas em seu corpo e carne quando tocava aquele outro corpo. Um afago, um beijo no rosto, abraço, que fosse. Quando tocava aquele corpo transfigurava-se em uma bocarra cheia de dentes e saliva-água-na-boca. Eis que, numa noite dessas perdidas entre o ócio e o trabalho interminável, um corpo resolveu ligar para o outro.  Era uma conversa-abraço, uma conversa-toque. Uma voz contentando-se com a outra voz. Depois disso, encontraram-se os dois. Um abraço, um beijo no rosto, cumprimentos, a parte, foram ao que interessava:
-Eu preciso que você me ajude numas coisas. Tô completamente...
Cortando a frase daquele corpo:
-Claro que ajudo! Eu não estou fazendo nada.
-Ai, valeu mesmo, viu?! Sabia que poderia contar com você. [sorriram-se]
-Não dizem que amigos são pra essas coisas?
Sorriram-se, novamente, um corpo olhando para o outro. Há uma pequena pausa que perdura por uns instantes, mas que para os dois corpos soa como uma pequena eternidade. Até que um corpo disse para o outro corpo:
-Pois então, me explica o que devo fazer.
Um corpo explicou ao outro e assim passaram algumas horas. Cada corpo inclinado em seu objetivo. Entre risos, uma conversa inacabável sobre todos os assuntos ao mesmo tempo. Entediaram-se os dois corpos com o trabalho.
Quando já exaustos, às tantas da madrugada, já a base de cafés, um corpo colocou-se retesado sobre o chão, cabeça sobre uma almofada. Convidou o outro corpo a fazer o mesmo. O outro corpo fez. A conversa ficou densa, lenta, até que resolveram de modo quase telepático parar. Silêncio.
Dois corpos e um lençol. O frio, que entrava pela janela que não fora fechada por preguiça mútua, fez com que um corpo dividisse o lençol com o outro. Aproximaram-se. Mais. Era tão estranhamente esperado aquele momento, mas, ao mesmo tempo, Pairava sobre suas cabeças uma atmosfera um tanto pesada. Permaneceram os dois corpos retesados. Estáticos sobre o tapete do apartamento.
 Dentro de si, uma revolução de sentimentos e estímulos. Era como que sempre quisesse aquilo. Porém nunca houvera momento. Coragem, melhor dizendo, para tal. O corpo alheio também esperava por isso, mas não sabia. Por vezes esboçava algum gosto por aquilo e bem que provocava. É verdade.
Eram dois corpos. Um de costas pro outro. O silêncio do mundo era entrecortado pela respiração profunda dos dois. Suas costas dançavam aos tremores de suas pulsações. Simultaneamente, resolveram se virar e falar algo. Seus rostos agora se encontravam frente a frente. E permaneceram inertes. Calados. Cada um sentindo somente o quente da respiração do outro em suas têmporas. Esboçaram um meio sorriso, um entrando nos olhos do outro.  E assim ficaram por segundos. Até que, um dos corpos deixou escapar:
-Engraçado...
O outro corpo complementou:
- Engraçado e estranho.
-Obrigado.
-Obrigado? Eu não. Por vontade própria.
Depois de ouvir a resposta, sua face avermelhou de tal forma que parecia pegar fogo. Abaixou as vistas e riu-se. O outro corpo, percebendo a reação deste corpo, dispara:
-Você é tão transparente quanto água. Fica com vergonha não. Sabe que eu tô com uma vontade de...
- Você também?
-Eu também o quê?
-Você também tem vontade?
-Muita.
- E por que não disse antes?
- Ah, não sei. Talvez porque você não havia me perguntado.
Riram os dois corpos.
-E agora, o que a gente faz?
-Isso:







Nada mais tinha importância naquele dia, naquele apartamento, naquela cidade. Era um mundo novo, suspenso, etéreo, tátil. Um mundo de sentidos. Entre os dois corpos o surgimento de uma nova era. Era uma gênese dual. Os dois corpos entrelaçados sobre o tapete do apartamento fizeram o dia amanhecer, como todos os dias. Só que bem mais tarde.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Atípico

Ler ouvindo “Dois barcos”, de Los Hermanos.



Era um dia atípico. Acordara atrasado para o compromisso. Não foi. Então, decidiu ir mais cedo para o trabalho. Na cabeça as descobertas de domingo: as felicidades corriqueiras, a conversa com um amigo que gosta muito, a traição de outro amigo que o decepciona e um quase relacionamento que acabou antes mesmo de ter começado. Por isso, era um dia atípico.


Não sabe como fez passar o dia tão rapidamente. Ele, no meio da densidade do mundo e da coleção de novos problemas. Acabou sozinho com os pensamentos prolixos e sinuosos, desobedecendo a linha reta da coerência. Era ele em sua auto-montanha russa. E nessas voltas, lembrou de uma frase que o amigo disse. Não exatamente a frase ao pé da letra, como se diz. Não exatamente sobre este novo relacionamento, mas o outro remoto relacionamento:


- ...talvez pode estar escrito... esse relacionamento de vocês...talvez, no futuro, vocês voltem...


O fragmento de conversa, ao fim do dia, permanece esvoaçando por sua mente. E, por isso, pensa em uma música que aprendeu a gostar – digo da banda – porque ela gosta e porque é ela e ele - a música -, ao mesmo tempo.

Angustia-se. Sente saudade daquele passado não mais remoto. Fecha os olhos e assiste por detrás de um vidro que o separa do passado a sua própria vida a dois. Eles eram lindo juntos. Uma sintonia tão perfeitamente linda e única. O sorriso de um era a extensão da vida do outro. Mas, como uma película de filme antigo, castigado pelo tempo, a imagem foi de desgastando e ficando em tons de cinza, com falhas. Depois disso, um blackout. Ao abrir os olhos ainda no escuro de si, luta contra uma lágrima empoeirada, esquecida no canto do quarto escuro de sua memória toda machucada e sozinha. Ele não quer. Mas quer. Ele hoje é só. Sozinho com ele, só com ele, mal com ele: Ele e a lágrima abrupta. Dois barcos à deriva em um oceano gigantesco. Uma luta homérica, épica para não morrer afogado pelo mar. Luta. Perde. Não vê farol, não vê mais nada. Fez-se mar.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Voz dissonante

Antes de qualquer nomenclatura, acima de qualquer tipo de qualificação devemos ter bem compreendido que somos todos seres humanos: iguais em funções vitais, porém diferentes em características físicas e ideológicas. Somos únicos e não temos valor calculável. Portanto, não estamos à venda. Infelizmente, somos escravos [mesmo sendo abolido o regime escravista há mais de um século] do sistema capitalista, que etiqueta cada pessoa com o preço que os patrões determinam. A partir daí, você passa a ter valor para a sociedade de acordo com o poder aquisitivo que possui. Construímos assim, todos os dias, grandes muros que separam pessoas, eliminam desejos e roubam as vozes dos que não podem participar da partilha da renda. O que nada possui não comunga do mesmo banquete. Não existe como ser humano. Torna-se o problema.
Como resposta às opressões, um grito existencialista é dado em cada canto do mundo, como sinal de resistência. O grito sufocado, abafado do que não tem vez é visto como atrocidade.
Uns roubam porque precisam, outros porque é o modo mais fácil de enriquecer. Há aqueles que são vítimas de assaltos. Mas há também os que vencem suas dificuldades e conseguem alcanças os objetivos. Mas não podemos esquecer aqueles que são interrompidos no meio do caminho e perdem a vida inocentemente. E, por fim, há os que nada fazem.
E assim, de seres heterogêneos, se constitui a sociedade. Mas quem são os culpados? E inocentes? Somos todos vítimas e ao mesmo tempo assassinos. Não podemos assistir nossa própria desgraça e aplaudir no final. Também não podemos rir da nossa desgraça. É preciso movimento para manter o corpo vivo. Aquele que nada faz se torna cúmplice de um crime que ele também será a vítima. É preciso reagir. Mergulhar em águas mais profundas. Comprometer-se com a causa. Decreto, assim como o Poeta Thiago de Melo, os Estatutos do Homem:

"Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.

Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.”.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Por uma resposta.

Oi.
Começo a imaginar que escrevo e falo comigo mesmo. Por que você não me responde mais as mensagens, os telefonemas, os e-mails? Talvez eu tenha errado o endereço, o número. Mas acho que não. Não erraria por muitas vezes. É você quem não atende e não responde. De fato, não consigo entender o porquê do teu silêncio, da tua distância. Mas é que eu não gosto de desse lance de subentendido, de deixar no ar. Muito mistério... Se, pelo menos, me dissesse algo...qualquer coisa. Eu vou ficar esperando. Calado.
Um beijo.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Solidão a dois

É uma sensação bem diferente das demais já experimentadas. Sempre diferente. Ela não falava com ele há bastante tempo. Suas agendas eram um tanto divergentes. E a correria cosmopolita impedia que pensassem um no outro. Por isso, um acaba escrevendo coisas corriqueiras, a fim de encurtar a distância, como um “boa noite, meu anjo, tô com saudades. Bjossss”.
Do outro lado da tela do computador, a mensagem é recebida com um sorriso que começa no canto da boca e se espalha pelo corpo. E em resposta, ele escreve um “Boa noite pra vc Tb, minha linda. Tb to c/ saudades,rs. Bjãooo!!”
De alguma forma, os dois se fundem no mesmo desejo e vão dormir, mais leves. Ilegais.
Deitado na cama, ele escuta uma música romântica, que se torna uma trilha sonora de sua pequena novela secreta. De barriga pra cima, sem camisa, ainda de óculos e com as mãos por baixo da cabeça, sobre o travesseiro. Lembra da mensagem e pensa, como se dissesse para ela:
- Tenho vontade de te escrever. Saber como você está. Te dar um abraço, fazer carinho em você e passar os dedos entre seus cabelos. Um beijo vagaroso. Uma conversa silenciosa, daquelas que somente as almas falam. Quero ter você...
Ela, de camisola, cabelos penteados, esconde-se encolhida debaixo do edredom, de perfil. Eterniza a resposta da mensagem e ainda tem aquele mesmo sorriso nos lábios. Faz um carinho no travesseiro, como se fosse a cabeça dele e pensa:
- Tenho vontade de te ver, meu anjo. Gosto de você. Tenho vontade de saber como você é. Por que não nos encontramos ante? Seria tudo diferente...
Cada um em seu mundo particular divide a cama com uma segunda pessoa Ele, casado com uma mulher alguns anos mais nova, mas comprometida com seu trabalho, de modo responsável. Ela, casada com um homem muito ocupado e ausente. Os dois casais encontravam-se duas vezes no dia: Quando acordavam e quando iam dormir. E assim, passaram os dias: se comunicando via mensagens de celular, entre bilhetes na geladeira e recados com a empregada. Durante a noite, ela procurava preencher o vazio através do computador. Ele trancava-se no escritório para terminar os trabalhos. Diante da esposa, apresentava-se sério. Foi adquirindo ao longo do relacionamento tal postura. Ela mostrava-se para o marido de maneira firma, quase que impondo sua competência como profissional. Solitários a dois. Nunca se viram de verdade e também nunca pensaram na hipótese de um perguntar ao outro onde moravam. Conversam até as tantas. E entre uma besteira aqui e outra ali falada, entre muitas risadas e sorrisos. Ele acaba por soltar, entre uma bobeira e outra, sem ter consciência:
-“eu te amo”.
Ela emudece os dedos e fica estática. Ele lê o que acabou de escrever e não se move. Engole seco o silêncio dela. Ela, num ato brusco, derruba a caneca de vermelha, em cima da escrivaninha. Pelo chão o café fresco. Pelo corpo a mensagem liquefeita escorre por cada poro de sua pele.
Ele, nervoso, enlouquece.
- Meu Deus, o que eu fiz?! Vai até o banheiro e pára em frente ao espelho. Olha-se como quem quer uma resposta. Tira os óculos, molha o rosto. Respira fundo e, medroso, volta para frente da tela. Do outro lado, ela desperta com o café e caneca no chão. Cata os cacos da caneca e, com um pano, limpa o quarto. Põe em outra caneca, também vermelha – é um conjunto de canecas vermelhas- mais café. Volta acelerada para o computador. Encara a tela. Responde:
- Não sei como dizer. Ñ sei o que dizer. Estou nervosa...
Ele toma coragem e retribui:
-Nunca disse isso a ng, assim. Eu ñ sei o que está acontecendo cmg. Desculpe. Desculpe...
- Não!
- Não o quê?! Ele responde, quase imediatamente.
-Não se desculpe. Eu também sinto.
-Sente?
- Sinto. Mas é estranho. É melhor deixar assim, como está. Estou confusa...
Ela, tensa, bebe de uma vez todo o café. Ele não compreende o motivo do “é melhor deixar assim, como está”. – Mas por quê?! , ele devolve.
- Porque nós somos assim, corridos demais. Não daria certo. Eu trabalho tanto e você também. Além disso, somos casados. Acho melhor não darmos mais nenhum passo...
- Você sabe o quanto foi difícil pra mim, ter que dizer isso. Eu tive de matar a mim mesmo pra te escrever algo que eu não tenho dimensão, algo que não cabia em mim. Eu não posso permitir que você não me permita...
- Como assim, não te permitir?! Você me pediu permissão pra me dizer isso? Eu recebi o que você falou e, até agora estou tentando engolir isso. É maior do que eu, você entende?
- Não entendo não. Eu estou me abrindo por inteiro pra você. Você não pode fazer isso comigo. Não tem o direito!
- Direito?
Sim, direito. Vc não pode ser egoísta. Você está sendo egoísta...
- e eu não conto nessa história?! Eu também sinto...
- Então porque você não faz como eu estou fazendo?
- Porque eu não posso Não podemos. Porque eu não sei... Olha, eu vou te excluir...desculpe.
- Não! Por favor, não faça isso?! Eu não posso conviver com a possibilidade de ficar sem você, de não falar com você... por favor, não me exclua. Por favor!
Ela coça a cabeça, de modo que se descabela. Ele, do outro lado começa a aguar o estranho amor.
- eu vou te ligar. Ele escreve.
- Não. Por favor. Não vou atender.
- Me dá o seu telefone.
- Já disse que não. Pára, por favor. Eu não quero cometer o erro de me apaixonar mais ainda por você. Isso não pode dar certo. Eu sou casada! Você é casado...
- Eu já nem sei qual foi o dia em que eu beijei minha esposa. Não nos falamos, quase. Sou casado, mas não estou casado...
- Meu marido não repara em mim. Trabalha muito e só o vejo quando chego em casa e quando saio pra trabalhar. Não sentimos mais nada um pelo outro. Mas não posso fazer isso...É melhor não arriscar.
Ele, uma metralhadora, dispara:
- eu passei a minha vida inteira com medo de me expor eu sou assim mesmo e agora que tenho a possibilidade de fazer isso não vou me permitir que isso aconteça nunca havia sentido nada igual em toda minha vida eu amo você e tenho certeza disso sinto falta de você todos os dias sabe como é ter que dividir a cama com um estranha? É claro que você sabe disso e só porque somos casados perdemos o direito de sermos felizes? Não é justo isso não é justo eu quero você pra mim e me entrego por inteiro à você você me despertou e eu te despertei temos que nos dar essa oportunidade falo mais com você do que com minha própria esposa na verdade sinto estou casado com você e isso é o que importa eu sei que isso é perigoso mas temos o direito de nos permitir amar e ser felizes por favor não faça isso comigo por favor não faça isso com você não importa o que as pessoas vão dizer o que importa é que eu te desejo e que você também corresponde a esse desejo vamos viver nossas vidas de modo que possamos ser felizes de verdade eu não sou feliz eu não sei o que é isso você é a única possibilidade de eu ter felicidade se eu te deixar ir não sei o que poderá ser de mim eu fico imaginando como pode ser seu rosto sua voz sua pele construí você nos meus pensamentos e agora isso é tão real que não posso deixar que morra não posso deixar que você morra em mim como minha esposa eu não posso você não pode eu me permito por favor se permita
Ela fecha de modo desesperado o notebook, chorando, vai até a suíte. Fica trancada por um tempo. Toma uma ducha. Ele, no escritório de casa, também trancado, permanece vidrado pela tela do computador, por um tempo. Exausto, levanta e fuma um cigarro na janela.
...

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Palanque.

Estou aqui porque acho que devemos fazer alguma coisa. Eu sou um cara pobre, brasileiro, filho da rede pública de ensino. Sem patrocínio, sem dinheiro. Cheio de hematomas por causa das porradas que a sociedade me dá. Por isso, acho que devemos fazer alguma coisa porque todos estamos no mesmo barco.
Quem poderia imaginar? O filho de uma catadora de papel, negra, analfabeta e, obviamente, pobre, passou para um dos cursos mais concorridos da Universidade de Pernambuco: Biomedicina. O jovem, negro como a mãe e irmãs, herdeiro de uma história marcada por chibatas, abusos, descaso e preconceito tornou-se a exceção da regra da sociedade brasileira. O ingresso para uma universidade pública seria uma possibilidade de um futuro melhor para ele e família. Mas essa história não termina com o clichê “e viveram felizes para sempre".
No dia 6 de março fará um mês que mais um jovem foi brutalmente impedido de conquistar seus sonhos. Histórias como estas já passam por nós de forma corriqueira e banal. Desta vez o ator principal do teatro do Brasil foi Alcides do Nascimento Lins, de 22 anos, que foi morto na porta de casa, no dia 6 de fevereiro. Por engano! Alcides acabou por fazer parte das banalizadas estatísticas de jovens pobres, negros assassinados no Brasil.
Precisamos fazer alguma coisa. Somos um povo com um histórico de luta e não podemos morrer na nossa própria inércia. Eu também estou errado porque estou dentro disso. Mas quero fazer diferente. Fazer o Certo. Posso estar sendo sensacionalista, não sei mesmo. Mas eu estou há muito com essa inquietude. É decepcionante decepcionado o andamento das coisas, com o conformismo e a apatia-nossa-de-cada-dia! Precisamos fazer alguma coisa. Por nós, pelos outros, Pra vida! Pelo amor de Deus. Sabe, eu não quero acabar como o Alcides: Interrompido no meio do caminho. Mas também não quero ser a minha própria pedra no meio do meu caminho. Sou solto demais pra acabar preso dentro de um sistema que nos coloca como café-com-leite na brincadeira do mestre mandou. Nós não podemos.
Somos negros, brancos, pobres, assalariados, subalternos, subdesenvolvidos. Mendicamos por uma educação falida, para ocupar a high society. Somos todos cegos no meio do tiroteio. Moribundos. Somos os cegos de Saramago. Somos um Haiti que tem escolas de samba e Ronaldinho. Somos uma colônia mestiça, tropical e catequizada. Adestrada para dizer sim e votar nulo. Não podemos esperar levar um tiro ou alguém próximo sofrer com a violência e o descaso. Não podemos ser Cristãos de IBGE, só pra contar nas estatísticas. Quando Jesus fez pelo povo, não estava preocupado com promoção e muito menos com estatística, rótulos. Ele era ele mesmo. E por isso fez o que fez. Não podemos mais nos sustentar de um rótulo de bons cristãos que somos. Nossa gente é apática e conformada. Vive na ilusão de obras e espetáculos de noventa minutos. Ser humano transcende o material. É hora de fazer porque estamos acostumados a mendicar, a pedir e reivindicar por nossos direitos. Mas temos deveres. Temos o dever de mudar. Quando um muda já é muito, mesmo sendo muito pouco, sempre será mais um. O mundo muda com a mudança da gente. Sejamos libérrimos e não escravos da desgraça. Incomode-se com o absurdo, incomode-se com o mundo, com tudo. Até quando você vai ficar sentado em frente da TV assistindo alheio o descaso que também é pra você? Não sejamos um monte de cebolas, que você descasca e no fim não tem nada mais que isso: casca. Precisamos fazer, ser mais!


"...Muda, que quando a gente muda o mundo muda com a gente
A gente muda o mundo na mudança da mente
E quando a mente muda a gente anda pra frente
E quando a gente manda ninguém manda na gente
Na mudança de atitude não há mal que não se mude nem doença sem cura
Na mudança de postura a gente fica mais seguro
Na mudança do presente a gente molda o futuro..."

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Uma carta.

Há tempos não escrevo uma carta. Há tempos também que não recebo uma carta. Há tempos que não vejo minhas letras e também não sei as dos outros. Há tempos que não vejo o contorno de minha alma e também o dos outros. Nunca escrevi uma carta sequer para ninguém. É bem verdade que ninguém também nunca me escreveu nada na vida. Mas é uma questão de tempo. Por sinal, o tempo é uma questão muito importante. essa chuva que cai me impede de fazer algumas coisas. Então, por isso, me deitei e acabei me encontrando pensando nessas coisa de escrever uma carta. Por isso, escrevo pra você, meu amor.

Rio de janeiro, 17 de fevereiro de 2010

Querido;

Estou tentando me virar aqui, sem você. sabe, é difícil demais pra mim. Aguentar tudo sozinho é muito difícil, mas vou conseguir. Um dia desses, arrumando o armário, achei aquela boina quadriculada que te dei de presente, lembra? Não sabia que ainda estava aqui. Lavei porque já estava quase mofando. O mais incrível é que mesmo depois de lavada, ainda ficou com o seu cheirinho. Seu quarto está limpo. Lavei o chão e troquei as roupas de cama. Aquela mancha do lençol saiu. Todas as manhãs eu abro as janelas, pro sol entrar. Às vezes, quando sinto muito a sua falta, durmo em sua cama, pra te ter mais pertinho de mim.Queria que estivesse aqui comigo. Desculpe. Não queria que fosse assim. . Mas é que você me irritava dizendo que me amava, que me queria por toda vida. E quando dei por mim, o revólver já estava nas minhas mãos. Hoje eu não bebo mais. Seu rosto era tão bonito... Rezo por você.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Etéreo.

** Ler escutando Mensagem de amor, de caetano Veloso.


Era um pouco mais. Era como se estivesse só no mundo-apartamento, com uma janela de frente para o calçadão. Era como se morasse lá, em cima do horizonte. Etéreo. Era um ar fresco e denso. Um ar que se podia sentir por entre os cachos de cabelo castanho-claros. Um ar fresco que resvalava pela e pele branca - quase avermelhada pelo sol da estação mais esperada porque era a cara de sua cidade. Porque era a cara de todos. Estava ali, ele, com seu corpo e sua mente: não pensava em nada. Acho que não era nada. Ou não.
Sim, estava ali, ele mesmo, com seu corpo, seus cachos castanho-claros, sua pele branca quase avermelhada, um vento fresco e denso, um vento resvalando e só. Ele, sozinho, à parte, era sem ninguém, sem alguém: Era ele e só. Era ele, sem o Deus. O mundo todo e ele só. Observava todo o mundo ao seu redor: cada fragmento de coisa, cada coisa, cada inação do nada em volta de si. Aspirou fundo o ar, percebendo seus pulmões, soltando-o com vagareza. Ao peito, um ritmo quase cadenciado do músculo-coração-de-carne. Se fechasse os olhos, não via nada além de um breu, que poderia ser ele, momentos antes. Mas é que agora não via nada mesmo, ao fechar os olhos. Mas sentia. Sentia na mesma cadência um fluxo, Um gosto de ferro. Um fluxo que fazia tremer suas pálpebras e incharem os dedos das mãos. Percebeu um pescoço: uma ligação. Um duto. Percebeu um sangue que não via.
Texturas diferentes, lisas, rugosas, ásperas mãos e pés lânguidos e transpirantes. Uma figura lânguida, músculos aparentes, costas. Plexo e bacia, ombros, esterno, diafragma, abdômen. Isso era um corpo. Ele era um corpo. Ele estava sendo um corpo inteiro ali, com ele mesmo: nele. Surpreendeu-se: nunca tinha sido um corpo inteiro. Quando faz um gesto, descreve uma linha no horizonte, uma trajetória no ar, que por quase um segundo se mantém e se desfaz.
Com a mesma consciência que acabara de nascer ali, ele olhou com o corpo todo, em trezentos-e-sessenta graus, o universo inteiro.
Viu uma natureza também sozinha. Uma árvore, uma amendoeira. Torta, grande, folhas verdes. Uma árvore sozinha no mundo. Um ser. Descobriu que a árvore não lhe causava afetação alguma. Nenhuma.
– Uma árvore é uma árvore e eu sou eu. Uma árvore não é nada. Eu sou eu. Uma árvore não é nada porque não poder dizer que é, mas também não pode dizer que não. Por isso não é. Eu posso, eu sou porque posso e sou. É isso.
Duas mãos, cinco dedos em cada mão. Um corpo inteiro e novo. Ele fecha os olhos e enxerga com cada dedo todo o corpo. Reconhece-se em si mesmo e sabe que está sendo ele mesmo ali.
Desce as escadas e descobre coxas, pés, joelhos. Articulação. Ele tem duas pernas e não três, como havia pensado. Ele não era um tripé há muito tempo. Desde hoje. Agora, em frente a coisa-árvore, olha-a com olhos, mãos, dedos e tórax. Descobre que no mundo há, além de seu corpo completo, inteiro, há também uma árvore. Perdoou a árvore por não poder dizer que era, que estava sendo uma árvore e só. Atravessou a avenida e chegou à areia cor de areia: ali, era ele, o mar, a areia e lá longe, a árvore. Deitou na areia e descobriu a sensibilidade das costas, braços e tudo. O universo de cima caia por sobre seu corpo todo, em um azul intenso da noite, estrelas e lua redonda. Fecha os olhos.
Alguns minutos. Ou não. Horas.
Levantou-se e andou sem rumo, em cima da areia. Tão completamente etéreo e só, tentando ver pelo corpo todo. Anda de costas para ver o horizonte indo e indo e indo...
Para. Há algo cujo corpo não tinha visto. Algo afetou sua trajetória, se traço no horizonte. Vira-se. E era um conjunto de pedaços. Uma matéria igual a ele, mas diferente. Também só. Longos cabelos e negros. Entre um e outro um abismo de silêncio separando os corpos. Alguns minutos. Ou não. Horas. Um universo parado, à espera de alguma ação. Vagando entre os astros um momento suspenso. Eram somente olhos e corpos até então. A garganta secou, a areia chupou a transpiração de seus pés lânguidos. Seu músculo-coração-de-carne aumentou, numa decadência. Ela apertava uma unha contra outra. O vento movia os cabelos e quase escondia seu rosto. Olhos castanhos. E intensos. Ele sozinho, à parte. Ela solitária e inerte. Até que ambas as carnes tocaram-se. Vinte e nove músculos gritaram. Duas línguas. Lábios e dentes. Mãos todas e tórax.
E foram os dois embora. Ele, antes sozinho e ela, solitária no universo-praia. Agora, um ensinava ao outro como ser sozinho a dois.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Você precisa saber.

Homem, Pra onde pensa que vai?
As coisas não são bem assim
Você não sabe o tempo de parar?
Voltar atrás não é desistir
Veja o que sua vida se tornou
Solidão, vazio e dor
Chega de mentir pra si
Dizendo que tudo vai bem
Tudo tá legal
Viver no caos não é natural
Pare agora com isso
Você está destruindo a si mesmo
Quando nega carinho
Quando diz não a um irmão que poderia ser você
larga essa arma
Essa guerra está fadada
A acabar com as esperanças de um mundo melhor
Discurso de tiros não faz de você um herói
Falsas promessas, politicagem, esse é o seu melhor?
Cruzar os braços diante da TV, diga, esse é o seu melhor?
Estar totalmente alheio a tudo, esse é o seu melhor?
Você precisa saber da fome, da violência
Da falta de assistência, do descaso
Do assalto a mão armada, da corrupção
Da má intenção, da crueldade
Da falta de liberdade, do aborto
Do mofo que cobre o seu corpo
Você precisa saber.
Eu não sei o que você está fazendo ou vai fazer
Mas você precisa saber.
Divino maravilhoso não está não
É bom colocar os pés no chão,
Meu irmão
Eu não sei o que você está fazendo ou vai fazer
Mas você precisa saber.

eu fico

eu fico esperando por comentários
eu fico esperando por redenção
eu fico esperando por respostas
eu fico esperando por uma luz
eu fico esperando por contatos
eu fico esperando por um tapa
eu fico esperando por vida
eu fico esperando por qualquer coisa
eu fico esperando por um sonho
eu fico esperando por um beijo
eu fico esperando por um vento
eu fico esperando por uma laranja
eu fico esperando por um estímulo
eu fico esperando por uma risada
eu fico esperando por copo dágua
eu fico esperando por um elogio
eu fico esperando por um tempo
eu fico esperando por um abraço
eu fico esperando por um carnaval
eu fico esperando por um raciocínio
eu fico esperando por um prato
eu fico esperando por um livro velho
eu fico esperando por nada
eu fico esperando por um cacho de bananas
eu fico esperando por tudo
eu fico esperando por um telefonema
eu fico esperando por um coqueiro
eu fico esperando entendimento
eu fico esperando por ninguém
eu fico esperando por um pedaço de pão
eu fico esperando por mim
eu fico esperando por todos
eu fico esperando
eufico esperando
esperando
eu fico
eu
.

Existe.

**Recomenda-se ler ao som de Summertime, da Janis. A Joplin, sabe?


Acordou diversasas vezes durante a madrugada porque o calor estava absurdo. Levantava, bebia água, se molhava na pia e voltava a dormir. Denso. Como o calor. Por fim, acordou antes do despertador tocar mas desistiu de tudo e desmaiou novamente. Recebeu um telefonema. Era Ana. Falava ininterruptamente sobre sua coleção de novos problemas e outras conversas como trabalho, teatro, grana, política, contas a pagar, fim de relacionamento e geladeira pifada: assuntos que todos gostam de falar, logo pela manhã. Sua voz-rouca-e-pouca arrrranhava a conversa que por pouco não era monólogo, se não fossem algumas poucas interrupções suas.
 - Te acordei?
- Não. Minha garganta tá meio ruim mrsmo.

Decidiu deitar no chão porque não aguentava de preguiça e calor. Em frente ao ventilador que soprava um bafo mais quente do que ele mesmo, naquele momento. Uma hora e blau de conversa, até que ele decidiu que.
Levantou-se. Precisava de um banho. Nu, em frente ao espelho olhava-se como um voyer o próprio corpo. Narciso-através-do-espelho. Água fria pra espantar os maus agouros e fazer trincar as articulações. Escorria por sobre o corpo, despertando pra manhã. Tesão de quem acaba de acordar:  Na cabeça a imagem de uma mulher gostosinha currada por ele e outro cara porque era um fetiche não realizado. Na mão direita o sígno da virilidade e do poder: uma revolução, a quebra de um tabu. 1960, 1970. Uma herança. Ou, quem sabe, um legadoo?! É, masturbação mesmo, cara.Punheta, cinco por um -  Por que, nunca fez? Porra, com essa cara, até parece...Como fazem os homens-sempre-garotos, como disse Nelson, o Rodrigues, sabe? "eternos anjos pornográficos" blábláblá... Arrumou-se.
Um gosto amargo na boca como quem tivesse bebido leite azedo. Era o gosto dele mesmo. O gosto de uma madrugada quente e densa e sozinha. O mingau das almas, como disse uma vez um amigo. Então, ele era o mingau da sua prórpia alma. autoantrpofágico. Hum, Interessante. Escovou os dentes, na tentativa de eliminar o amargo. Até conseguiu. Substituiu o gosto de si pela menta-hortelã-não-sei-o-quê da pasta de dentes. Lembrou que era podre e cheio de bolor. Sorriu feliz e  saiu da casa.

Foi ganhar a vida. Trapaceando, é claro, porque ninguém é de ferro.

Chegou no "quase" trabalho - porque aquilo que ele fazia era trabalho mas não era, ao mesmo tempo. Meio copo de café, pra amargar de vez tudo aquilo e manter acordado, quase-aguentando, com uma fatia de pão ázimo, pra se redimir - um pouco - dos pecados - muitos - e da masturbação matinal. Pão ázimo lembra Jesus Cristo, os apóstolos e aquela história toda que nos faz sedentos dalguma santidade, castidade...Re-den-ção! Bonito, né? E assim foi novamente. Pôs-se a escrever. Ao som de Sommertime, com a voz rouca, quase-igual-a dele, da Janis. A Joplin, conhece? Então.  Até que gostou.E quase sonhou. Mas acabou por lembrar que não sabia como fazer aquilo...Por isso, ficou a remontar um passado já vivido, não por ele, graças aos cheiros e imagens e às sensações físicas e as da alma, sugeridas pela música, acompanhada por um cigarro de filtro vermelho.
- Ai, nostalgia de um tempo não vivido. Isso existe? Existe.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Uma íris cansada

Como se faz , por vezes, até jocoso, tentar lembrar dalguma coisa por mim vivida. O estranho de tudo isso é que o chavão "recordar é viver" não se aplica a tal prática. Busco dentro de minhas memórias pálidas e empoeiradas, da minha vida infinda, uma lasca de lembrança qualquer que seja, justamente para não viver. Revivo o ontem na busca de encontrar um rasgo, uma rachadura, um buraquinho na parede do tempo, a fim de descobrir um possível fim para mim. Por hora, fico a imaginar a minha morte, o meu desaparecimento do mundo e de mim mesmo. Já não conto mais os dias, visto que todos e cada dia se torna uma tortura inacabavel. Não durmo, mas também não vivo. Estou num estado de permanência constante em algum lugar que não sei qual, com pessoas que não sei quem. Num tempo que não é meu. Que passa, mas não me leva. Enquanto isso eu fico aqui, vendo o tempo passar, com minhas pálidas e empoeiradas lembranças, de uma vida quem nem me pertence mais. Eu, descolado do mundo, tenho a sensação de estar sendo sustentado por uma película muito fina, quase transparente, que me mantém num mesanino de tempo, no qual há uma força que me puxa para trás e outra que me empurra para frente. Tais forças me anulam de ação qualquer e por isso orbito em mim, mas também nas páginas da história, entre astros e corpos que não posso tocar. É uma máquina do [não]tempo. Eu, estranho e só, orbito por entre os tempos que não conheço. Eu, sem tempo que me fixe, não tenho o compromisso de um dia acabar. Desprendido da história, vejo as águas da humanidade formarem ondas e destruírem conceitos. Coroações de reis, batalhas sangrentas, revoluções, os amores e o mofo das velhas ideologias. As vanguardas: Um fluxo interminável de acontecimentos e mudanças quais não participo. Brinco de fazer revolução, de coroar reis e rainhas, de amar o mofo. Ironica e contraditoriamente para passar o tempo.Ahahahahahahahahahahaha! Sou uma testemunha. Uma íris cansada. Olhos sem pálpebras.
Talvez, talvez a única solução seja eu esquecer de mim. Assassino minhas lembranças, os mortos que nelas caminham. Vou demolindo cada pedaço da minha existência, até deixar de existir. Sim. porque a morte nada mais é do que deixar de existir para sempre. Acabar para o universo. É trancar-se no vácuo. No fundo escuro do espaço vazio.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Diariamente!

Hoje eu acordei com vontade de comer um livro. Um livro não. Muitos. Histórias, teorias. Qualquer coisa pra preencher um enorme espaço vazio de atividades nulas, que costumeiramente chamamos de férias. Ode ao ócio! [??] Isso me enjoa.
No mesmo ínterim, quero assistir uma peça do Caio Fernando e ler um livro seu de teatro - emprestado - e ir ao cinema e pintar e fazer um curso no Parque Laje porque lá é lindo e me parece bem do jeito que eu gosto: livre! Quero escrever num caderno novo algumas coisas e fazer uma peça e dar um beijo na boca e ir à praia e morar na água porque o calor está comendo o mundo e trabalhar e beber um copo d'água e falar outra língua e cantar e poder pagar todas as minhas contas e ficar o dia todo no ar-condicionado e sorrir e sair pra um milhão de lugares e fazer outros milhões de amigos e comprar um par de chinelos amarelos e viajar e ficar nu e raspar a cabeça e voar de asa delta e fazer trilha e aparender a tocar violão e andar descalço e publicar um livro e ser famoso e ter três filhos e chamar a primeira de Nina e a segunda de Flor e o terceiro de Tito e comprar uma casa bonita e ter um cachorro e uma mulher pra chamar de minha e uma biblioteca e não ter mais gastrite e não precisar de antidepressivos e ter muitos sonhos bonitinhos e chamar os amigos pra uma festinha no fim de semana e sair correndo par qualquer lugar. Ou seja, Hoje eu acordei com uma vontade de comer a vida inteira, pra ficar vivo eternamente. Pelo menos por hoje.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A Santa Missa

A Santa Misssa. Seus olhos, de ambos, conheceram-se antes de tudo, mas não perceberam simultaneamente. Os dele viram-na primeiro. Os dela talvez. Talvez. Talvez não com o mesmo vigor. A Santa Misssa, o domingo, tornou-se, então, o dia mais esperado. Era o dia dos olhos receberem a graça divina, além da alma. Como de costume, trocávamos somente olhares. Mas um dia: a epifania. Toda a graça dos céus, toda luz do mundo invadiu-me o peito e dissipou-se por todo meu corpo. Ela deu-me um sorriso. Tímido. Mas deu-me um sorriso. O único. O mais lindo. Indiscutivelmente. Aquele sorriso valeu-me mais que mil orações, mil homilias. O Evangelho do dia para mim foi o Evangelho do Santo Sorriso, todos os capítulos, todos os versículos. Glória a Vós, Senhor.
Já na fila para receber o corpo de Cristo, junto às devotas e outros fiéis, estava eu, sempre a olhar sua figura mais que divina. Ela passou por mim e ouvi o coral de anjos regozijando com toda glória. O Ministro da Eucaristia:

- Corpo de Cristo. E no mesmo instante, ela deu-me um “bom dia”. Fiquei tão confuso que disse:

- Amém, para ela.
- Bom dia, para a hóstia.

Que o Senhor Jesus Cristo não me ouça os pensamentos e tampouco leia tais escritos. Mas, daquele momento em diante, comunguei o “bom dia” como o Seu próprio.

- Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém!

+++
...
"Meu pensamento se sente passarinho no ninho do corpo dela. Passarinho que, para descrever nossos encontros e minhas lembranças, talvez seja capaz. Minhas asas batem e permaneço imóvel. E isso me faz perceber que, por mais que eu pense estar mudado, eu ainda sou o mesmo. Mesmos amores, mesma essência."

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

2mil&10!

Chegada de ano novo sempre vem com um gosto bom, uma expectativa, uma energia que nos toma de todo. Esquadrinhamos novos projetos, sonhos e até assumimos novas e diferentes posturas. Quem já disse para si e para os outros “2010 será diferente!”? E é realmente essa a chave da questão. Ser diferente. O “ser diferente” é dar a si mesmo mais uma oportunidade de tentar, de fazer, de ser. O ano começa sem medo, sem ressentimentos, sem peso. Leve como um sonho de criança, puro e colorido. O ano novo. Uma nova vida. Caminhos, gentes, promessas, enfim, um sem número de adereços para enfeitar a trajetória que dura 365 dias.
Que possamos, apesar dos pesares, das disputas de poder, do clientelismo, da falácia dos homens corrompidos e da descrença dos pessimistas, fazer um 2010 mais humano, em relação aos que passaram. Porque idealizar projetos, sonhar, anotar suas metas e pendurá-las em um mural é muito mais fácil e cômodo. Sonhar não dói e projetos idealizados nunca contam com imprevistos. A vida também e feita de revés. Que além de sonhar, possamos nos dar a tal oportunidade de agir, de trabalhar com empenho, para que a abstração de um simples sonho se torne uma realização concreta.
A hora de tirar nossos projetos da lista inerte de metas para este ano que se inicia é agora, e como diz o poeta Fabrício Carpinejar: – Que me seja permitido desaprender os limites”.

domingo, 3 de janeiro de 2010

uma essência muito boa

Repassei as páginas do ano que passou. Vi que havia deixado pra trás, em baixo de um monte de poeira, uma essência muito boa. Uma coisa cheia de matizes reluzentes e sons de floresta, gestos carnavalescos, um perfil tropical. Havia deixado de lado, embaixo de um monte de poeira, uma essência. A minha tropicalidade. retomo o que é meu. Volto a ser Eu. Saio pra rua,com a minha velha roupa colorida, na linguagem do alunte, pros pingos da chuva me molhar!



"Vou mostrando como sou
E vou sendo como posso,
Jogando meu corpo no mundo,
Andando por todos os cantos
E pela lei natural dos encontros
Eu deixo e recebo um tanto
E passo aos olhos nus
Ou vestidos de lunetas,
Passado, presente,
Participo sendo o mistério do planeta
O tríplice mistério do "stop"
Que eu passo por e sendo ele
No que fica em cada um,
No que sigo o meu caminho
E no ar que fez e assistiu
Abra um parênteses, não esqueça
Que independente disso
Eu não passo de um malandro,
De um moleque do brasil
Que peço e dou esmolas,
Mas ando e penso sempre com mais de um,
Por isso ninguém vê minha sacola"

everythin' means nothin'

É.
Depois de tantas sensações quais não foram descritas com o verbo, depois de tantos momentos que não foram registrados pela máquina de escrever e sequer pela tinta de uma caneta - mas sim pelos olhos, pele, carne - ele, que já havia, pelo menos pensado ter superado o retrato vivo do ontem, recebe a notícia que não poderia chegar: Ela está nos braços de outro. Outros braços. Que não são os seus.De imediato se riu e achou bom. Ela merecia. Era o que Carlos achava do peito pra fora.


Chega em casa. Vê a foto daquela que não é mais sua - porque nunca o foi, visto que todos nascem livres, mas isso não vem ao caso. O caso é que ela não era mais sua e ponto. Escreve pra ela. Mas escreve dando felicitações de ano novo e outras formalidades mais. Não era isso. Carlos acabou por trocar o papel pelo peito e escrevera tudo o que gostaria de dizê-la dentro dele. Tudo pra não aguar o amor alheio, que podeira ser o seu...

Tem uma sensação estranha pelo corpo. Uma corrente de ar que passa pela garganta e todo o resto do corpo. Senta-se no terraço e olha para o céu que está avermelhado. Não lembra de ter visto lua. Madrugada.

" everythin' means nothin' if i ain't got you..."

Ele, uma música ao fundo e o céu vermelho de meia noite. Os três dentro de um mundo enorme e vazio. Carlos sabia o que estava acontecendo. Só não queria entender...

terça-feira, 24 de novembro de 2009

O oitavo pecado capital

Em um dos muitos devaneios da vida, estavam lá, os dois e o resto do mundo. Mas só havia os dois e mais ninguém debaixo daquela lona. Uma música apenas foi o bastante pra unir ele mais ela e fazendo os fluídos corporais tornarem-se um só. Um corpo. Uma linha. Um movimento. À cintura o braço que aperta pra dentro do corpo do cabra o ventre quente. Não se alembrava se já era noite ou se tava amanhecendo dia. Ele queria mesmo que os relógios todinhos do mundo parassem, praquela coisa toda boa nunca de se acabar!
Aos pulmões o perfume em seu cangote. Seus negros cabelos em seu rosto. Ela dança que só sendo. Sabe quando você anda o dia inteirinho, com um sol que tá mais pra maçarico, escorrendo água pelo quengo, cheio de sede, com a goela mais seca do que o sertão, aí, tu avista um copo d’água e se pica de uma vez só pra matar aquele copo numa talagada só? Pois, é. Era assim mesmo, igualzinho, igualzinho. Só que em dobro.
Quando gira, sua saia vira um disco, uma vitória régia que dança e espalha todo o pólen. Quando ri, mostra sua luz num sorriso largo e nos olhos, os desejos que os toma: um álibi para o crime perfeito. Ela é, como diz a música qual dançavam, o “oitavo pecado capital, a quinta estação”.
Olhe, as canelas de de João ficaram da cor da poeira do chão de terra batida, que só nessa terra tem mesmo. Dava até gosto de ver aquele rala bucho. Nunca vi um casal mais bonito em toda essa vida. Visto que só pode ser nessa vida mesmo porque nunca tive outra. Mas pra João, coisa assim era fácil. Aquele ali vende até casa pegando fogo de tanta lábia que tem. E mulher, sabe como é, gosta de uma conversa miolo de pote. E tudo fica mais fácil depois de tomar a água que passarinho não bebe. Aí, já viu! Não preciso nem dizer o final da história.
Na verdade verdadeira mesmo, preciso sim. Acontece que João não sabia que tava se engraçando com a mulher do cabra mais mordido de toda região do Vale do Carapanã. O dito cujo atendia pelo nome de José Messias, que de Messias mesmo, só o nome. O Cabra era tão ruim, mas tão ruim que até o Cão cagava quilo pra ele. Pois bem, lá pelas tantas, João mais Pureza [esse era o nome da fêmea!] se aresolveram de se atracar bem ali, no meio do forró.


João - Ôxe, morena, tu tava na fogueira, é?

Pureza - Eu não, porquê cê tá me perguntando isso, homem?


João - Porque teu corpo tá pegando fogo. Olhe pra mim, to até desidratando.


Pureza- Deixe de besteira! Até parece que não sabe que aqui, quando num tá calor, tá quente... Olhe só. Meu colo tá todo molhado.


João - Deixe que eu assopro. Com todo respeito.


Pureza [sacudindo o vestido , como quem se abana] - E assopro resolve não. Eu sinto muito calor. É de família. Todas as mulheres da minha família são assim... vou abrir um pouquinho o meu vestido. Você se importa?


João - Mas é claro que não! Confesso que até que gosto.


Pureza - Só não quero que ache que eu sou, assim, uma safada, que abre o vestido pra qualquer perna de calça que aparece.


João - De jeito nenhum! Quando disse que até gosto, foi querendo dizer que admiro mulher assim... [escolhendo palavras] determinada, de peito, entende?


Pureza - Ah, sim. É verdade. Se tem uma coisa que eu tenho é peito. Meu filho, quando eu quero uma coisa eu vou até o fim do mundo e busco. Seguro com força.


João - Com força, é? Ai, meu Deus!


Pureza - Exatamente. Seguro com força na mão de Nossa senhora. Porque se tem outra coisa que eu sou, é religiosa. Tenho uma mania de me pegar com santo, que só vendo. Pra qualquer coisa eu rezo. Mas só pode ser de joelhos.


Foi aí que João acabou de perder todo juízo que não tinha. Pureza se riu e, numa explosão segurou João pela camisa de modo que saíssem os dois dali.



Pureza - Ai, vamos sair daqui, preciso tomar ar.



João sabia o ar que pureza queria tomar. E tava disposto a dar.



João [tentando passar uma lábia] - Já lhe contei que que já fui seminarista?



E foi justamente nessa conversa miolo de pote que Pureza e João terminaram por comer todinha a fruta do pecado, logo ali.



Pureza [de modo muito do safado] - Ai, João, me respeite que sou uma mulher direita.

João - E eu não sei? Estou constatando. Toda direitinha!

Pureza - Ai, João, tu não me pegue!

João - Olha que pego!



E esse “pego – não – pego” num repente acabou. O que sucedeu foi que José Messias , o cabra mais mordido de toda região do Vale do Carapanã apareceu, procurando por sua esposa.



José Messias [chamando alto] - Pureza! Aonde é que tu ta, mulher?! Se tiver com algum cabra safado, ele vai comer bala por outro buraco que não é a boca!


Pureza - Ai, João, é meu marido!

João - Marido?!


José Messias [chamando alto] - Pureza, é tu que ta aí, safada! Eu acabo com com tua raça, rapariga! Tua e de quem mais estiver aí!


João - Por que você não me disse que era casada?


Pureza - Ôxe, porque você não me perguntou. Vai lá, deixe de ser frouxo e enfrente o homem. Por mim. Diga que eu não to aqui não.


João - O marido é seu e eu não tenho nada a ver com isso. Eu quero e salvar o meu bucho. Se esse cão da costa oca me pega aqui mais você, eu to lascado!

Pureza - E agora?!


João - Tu não disse que era apegada com santo. Reza, bichinha. Reza por nós dois!

Pureza - Se oriente, homem. Se oriente!


João - Medo pesa?


Pureza - Claro que não, homem.


João - Então acho que estou todo cagado.


José Messias - Pureza! Apareça, mulher!


João - Ai, Jesus, já consigo Te ver...


Pureza - Ôxe, que cabra mais cagão é tu, João. Não honra essa chibata aí no meio das pernas, não é?


João - Honrar eu até honro. Mas hoje eu abro uma exceção.


Pureza - Então se pique daqui, vá!


João - Como se fosse possível. Querer, até quero. Mas minhas pernas não permitem...Ave Maria, cheia de graça...



Pureza - E é hora de rezar, seu fresco?


João - Se ajoelhe e reze comigo.



José Messias entra numa carreira e a mulher se desespera.



Pureza - Ai, José, tenha piedade, pelo menos de mim, que sou sua esposa!


José Messias - Tu ta aí, safada! Vou passar ferro nos dois! João! Homem, tu ta vivo?


João [de costas, tremendo mais do que vara verde] - Por enquanto.


José Messias - Levante-se, homem... e venha dar um abraço em seu amigo!


Pureza - Amigo?


João [virando-se] - José?! Mas... é você? É você o marido de Pureza?


José Messias - Mas é claro, homem! Vocês já se conhecem?


João e Pureza, nervosos, respondem juntos.


Pureza - Não!

João - Sim!

José Messias - Não estou entendendo. É sim ou não?!


João - Sim e não. Eu estava justamente perguntado á sua esposa sobre você, meu amigo. Estou chegando hoje aqui e, como sei que o compadre é conhecido por estas bandas, me arresolvi de fazer uma visita. Nem tinha ciência de que purez, quero dizer, Dona, Pureza, era sua senhora.


Pureza - Era isso que eu estava tendo dizer, meu marido.


José Messias - Então, está tudo resolvido! Vamos até minha casa. Vai ficar em nossa casa e por quanto tempo quiser. Só não entendo o porquê da reza. Deu pra ser religioso agora, cabra?


João - É o pecado, compadre José. É o pecado...


Os três caminham rumo à casa de José Messias, o cão da costa oca. E foi assim que João conseguiu salvar seu bucho, pelo menos, desta vez.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Mais um dia

O Sol, já frio, dá adeus e desce.

Suas costas fizeram o crepúsculo

Em instantes o azul ficou rubro

E neste mesmo compasso

A Lua imperou no Céu que de amor carece

E, por isso, baixinho, ele faz uma prece

Vê - se, então, uma gota de chuva

De seus túmidos olhos rolar

A Lua, complacente, alumiou

Seu coração de nuvem

Como se ali uma noite quisesse morar

Tendo o Céu correspondido

Fez de seu amante o mar

E esse amor dura o infinito

Até o Sol de novo raiar.

[30/05/07]

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Num dia.

era um dia lindo
um sol amarelo
era festa
era um samba
cerveja
dança
dança
dança

era um dia santo
um gesto profano
eram olhos vivos
dentes
beijos
gentes


eram muitas cores
eram mil sabores
pernas fortes
bundas lindas
voz de homem
um nome
um nome
um nome

uma luz de dia
um corpo pulsante
era um batuque
uma alegria
antropofagia
uma alegoria
era uma menina
uma menina
linda
linda
linda
linda


o coro dizia "parabéns pra você!"
tudo isso num dia:
num novembro de carnaval!

Negros cabelos [João de Barro]

Andei atrás dessa música por tempos. Descobri um verso dela em minha mente. Agora eternizo aqui.


Negros cabelos que me levam
Quando passam por aqui
E me arrastam os desejos com tal liberdade
Minha flor, minha vaidade,
Meu álibi!

É o oitavo pecado capital é a quinta estação (ô-ô-ô)
O desejo mais mortal é a minha visão
Que me arrastam os desejos
Pela madrugada da pá virada
E planta flores no meu coração

Curvas que levam o pensamento
Brilham com a luz do luar
Que me passam ligeiro como vento
Consciente entendo
Quero te namorar

Já são oito horas e te aguardo no meu portão (ô-ô-ô)
Não sei como mais chamar a sua atenção
Meu coração sozinho não vai mais por esta estrada
Que a vida me deu sem uma grande paixão!

terça-feira, 27 de outubro de 2009

[Des]humanidades

Entre helicópteros, tiros, caveirões e notícias de [tele]jornais das últimas semanas, temos entremeado o vazio, o choro, o desespero, o sangue, o medo e a descrença. Pior que isso tudo, como efeito colateral da brutalização e o afastamento de nossas relações interpessoais, acabamos por confirmar que Darwin estava certo, quando defendeu a idéia de que havia, sim, entre os animais, a mutação, decorrente à adaptação ao meio, como forma de resistência: O que confirmaria a evolução das espécies. Neste ponto, infelizmente teremos de discordar do velho Darwin. O que didaticamente recebemos é que sobrevive ao meio aquele que é mais forte e, consecutivamente, evolui. Mas vemos hoje o processo oposto, em parte: sobrevive ao meio aquele que é mais fortemente armado e, consecutivamente, involui. Caminhamos rumo à barbárie, desumanizamos a vida e nos tornamos impotentes.
Já não mais nos toca as notícias diárias de confrontos armados, onde não mais pessoas morrem, mas sim, números, meras estatísticas. Tudo parece tão distante de nós, mas, ao mesmo tempo, tão perto, que nos deixa confusos quanto aos sentimentos. E de onde nasce, ou melhor, de onde se aborta esse projeto de humanidade? Eis uma pergunta que antes mesmo de ser concebida, se cala por falta de pensamento para produzi-la e voz para torná-la audível. Perdemos, gradativamente, a nossa identidade e com isso, estamos longe da imagem e semelhança de um Cristo que encarou tudo e a todos, por um propósito. Propósito este que nos incluía, sendo seus seguidores ou não. Hoje, construímos uma blindagem em torno de nós mesmos, a fim de nos protegermos das outras pessoas, visto que são uma ameaça. A justificativa é unânime: “não sabemos em quem confiar”. Jesus, em sua trajetória, também sentiu medo. Contudo, fez algo que não aplicamos: Ele se permitiu aos demais. Confiou na possibilidade da mudança do outro.
A descrença é fruto dos fracassos e da não humanidade do próprio mundo. E a inércia é a única alternativa [ pelo menos, é o que nos parece] de mantermo-nos vivos. Você vale aquilo que tem e não mais aquilo que se é. Uma pessoa se faz importante pela quantidade de cifras acumuladas em sua conta bancária. Ser bom tornou-se sinônimo de ser bobo, fácil de ludibriar. A sociedade, a cada atrocidade, a cada “não” dado ao que precisa de ajuda, violenta, crucifica mais uma vez o mesmo Cristo que disse sim á nós. Devemos reavaliar a nossa postura, como seres humanos, pensantes, agentes transformadores, e, sobretudo, cristãos, quanto ao panorama que se nos salta aos olhos.
Prender, matar, excluir é realmente a solução para um problema que é de todo mundo? Rodear-se de alarmes, muros e ser monitorado por câmeras possibilita maior qualidade de vida? Precisamos acreditar que estas não são soluções, mas interrupções. Tais ações interrompem a possibilidade de estabelecer com o outro uma relação humana e nos reduz a condição de moribundos. É preciso resgatar os valores que deixamos de lado. É preciso ressuscitar o Cristo que há dentro de cada um de nós, para que seja possível [re]construirmos uma civilização cujo respeito exista, onde estejamos todos vulneráveis ao amor.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

quando nasci, prenderam-me dentro de mim.


disforme no meio do universo-corpo. eu, hipérbole-interjeição-tropical. eu. de dentro pra fora. arte-caos. arte-grito. arte carne-viva. anti-arte. anti-eu.luto contra mim porque sou meu próprio inimigo. mas também sou meu herói.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

cansei

cansei. escrevo para ninguém ler. simplesmente escrevo por impulso. Quando escrevo faço uma linha, desenho uma trajetótia, que parte de um ponto -eu- e que deveria[!] chegar a algum lugar - o outro. mas não chega. Então é uma energia disperdiçada no espaço. Em vão. è um movimento nulo. Uma inação. Um não objeto. Um vazio.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Gêneses

No inicio, era o vazio. E então, fez-se a luz: ganhamos o dia e a noite. Depois veio o firmamento que separou as águas: fizeram-se o céu, a terra, os mares. Aí, vieram as plantas, as árvores, frutos com sementes para nascerem novas árvores; o sol, a lua, as estrelas... Até aí, já era o quarto dia.
Criaram-se animais de todas as espécies e multiplicaram-se pela terra. Aí, chegou a vez do homem. Do homem tirou-se a mulher e a eles o domínio de tudo. Ao homem deu-se a capacidade de criar coisas:
Roda, sapato, cadeira, carro, reino, exército, jogo, bússola, cave, ventilador, macarrão, rádio, muleta, tesoura, livro, fogo, remédio, barbeador, soro, eletricidade, escrita, coca-cola, bandeira, chocalho, navio, parque, canudo, chuveiro, bossa, casa, arte, jardim, escada carrinho de mão, morte, náusea, fio, apostila, aliança, telefone, trombone, país, luta, imposto, desgosto, guitarra, laço, abraço, cruz, graça, desgraça, cachaça, gilete, amor, malandro, machado, cigarro, sexo, nexo, caneta, raiva, caneca, cinema, política, voto, jato, beijo, lixo, família, emprego, teatro, jornal, sífilis, manta, passagem, grade, garrafa, chinelo, internet, loto,asfalto, metrô, balde, inchada, chafariz, muro, estupro, revolução, ciência, dança, desinfetante, espumante, banheiro, férias, salário, palanque, auto-falante, sofá, buquê, noiva, vestido, mochila, dinheiro, tapa, carta, saudade, descarga, pizza, bingo, fuzil, estante, texto, ator, dentadura, vassoura, chiclete, vedete, saia, perdão, grampeador, mercado, calculadora, gaveta, escola, carnaval, casamento, abridor de latas.
O homem precisou de muito mais de sete dias para criar tudo isso. Estamos longe do que o mundo era antes. Somos auto-suficientes, inteligentes e ultramodernos. Ninguém mais vê o vazio porque ele se escondeu. O vazio está aqui, dentro de nós.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Outros fragmentos

“... E se eu parar de falar será porque não existe mais nada pra ser dito, se bem que nem tudo foi dito, se bem que nada foi dito...” [S. Beckett: Malone dies]


- Escrevo porque é a única coisa que me resta. Porque escrevendo minha alma não resseca e meu peito também não. E assim, vou enganando o tempo e tentando deixar viva a trajetória de uma vida inteira nas páginas encardidas e empoeiradas de minha memória. E assim, vou esperando a história, com h maiúsculo, resolver tornar-me visível. Mas, a partir de quando um cadáver se torna um cadáver histórico?
Além disso, escrevo para ver se ela volta. Mesmo que venha somente para me dizer “não”. Escrevo para que um dia eu possa pedir perdão por tê-la amado tão intensamente. Tão secretamente.
Hoje só me resta memória. Uma memória que não me traz nada além da ausência. Sem essência, sem nada. Oca como o vácuo. Como meu peito.
Chamo-me Domingos Dias Pereira. Sou brasileiro. Filho de pais brasileiros. Cristão católico. Morador do Rio de Janeiro. Introspectivo. Triste. Vivo entre livros. Descobri-me um homem de letras quando, na tentativa - inútil - de falar tudo o que sinto (um dia) para a mulher de minha vida, passei a escrever. Mas nunca, apesar de escrever sempre, entreguei as cartas.

Domingos sonha. Sonha em ter com ela uma vida. Uma eternidade. Para ela, Domingos é somente amigo. Pra ele, ela é somente tudo.

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sexta-feira, 28 de agosto de 2009

terça-feira, 25 de agosto de 2009

visando primavera-verão

Hoje eu comprei uma caixa de lápis de cor. Para pintar as paisagens cinzenzentas de agosto.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Outra nota para o dia de hoje.

o Teatro é o meu samba!

Pena que o carnaval já passou...tudo após, vira Bossa.

Nota para o dia de hoje.

Uma sensação trans-material

Eu já não faço mais parte do lugar que antes era meu também. Eu já não me sinto tão dentro também, mesmo que eu faça algo, sempre ou não.Já vejo os portões enormes e brancos tão longe que chegam a confundirem-se com a poeira acumulada nos velhos objetos da estante. Pois é, coloquei o meu sonho na estante, assim como os velhos livros que nunca li, mas sempre estiveram lá.

sábado, 15 de agosto de 2009

terça-feira, 11 de agosto de 2009

terça-feira, 28 de julho de 2009

Copo de vidro

Por Eliza Viana.
Ler em seguida "Entre copos e cacos".



“Foi na hora em que você não viu. Sem ser muita novidade, posto que, não raro você não estava olhando. Por isso mesmo, há de ser um mistério para a vida inteira. Um vento bateu na hora. A força do espírito santo. Um mau agouro. Ou uma mão cheia de vontade pegou com força o copo e o fez espatifar-se com gosto, em mil caquinhos, no chão. Você não viu. Você não sabe. Nunca saberá.

Agora está assim: irremediável.

Copo de vidro não é cobra de vidro, eu bem já lhe havia dito. Mas você não conhece, nunca nem ouviu falar em cobra de vidro e julgava que o copo estivesse bem guardado. E eu, embora tenha na paciência uma das minhas grandes características na vida, não tive paciência - ou foi vontade mesmo - para explicar. É porque você, além de nunca querer ouvir, não entederia. Não é capaz de perceber que se você deixa por aí largado o copo, cheio ou vazio, pode mesmo acontecer dele cair e quebrar. Difícil? Não.

Copo quebrado todo mundo sabe que o remédio único é varrer e jogar fora os cacos. Minha mãe também me ensinou que, depois da tragédia feita, é bom andar calçado porque sempre ficam uns cacos e se pode cortar o pé. Eu aprendi.

Mas então, agora, depois do chão já limpo, você vem para catar os cacos e saber do que aconteceu. Caiu, quebrou, passou. É só o que eu lhe digo.

O chão já está limpo, já disse e odeio me repetir. Eu já estou pronta. Já tenho um jogo novinho de copos de cristal guardados numa charmosa cristaleira - "resiste ao tempo e às boladas que levou". Aliás, vai ver foi isso: umas crianças jogando bola, é assim mesmo... entra pela janela, bate e sempre quebra alguma coisa. A gente grita, reclama com os pais, mas no fundo não liga não. Acha até bonito, engraçado, coisa da idade.

Então pronto. Expliquei. E daí se não é verdade? Podia muito bem ser. Se o que você queria era entender está tudo certo. Agora eu preciso ir, atrasada para um compromisso importante. Você faça o favor de ir embora porque eu já disse - e era o mais importante que, como sempre, você nem se importou: era copo de vidro e não cobra de vidro. Porque cobra de vidro é uma espécie de lagarto que se você parte ‘dois, três, mil vezes, facilmente se refaz’.”.

Entre copos e cacos

Eu sei que copos quebram e que cobra de vidro se refaz. Sei que o réptil se adapta ao clima e que os copos, em certa medida, também. Se você põe gelo, ele sua, se põe café, ele queima. Mas copo de vidro quebra em mil pedaços, estilhaços e aos cacos só restam o lamento de quem os quebrou, uma pá, vassoura, saco de lixo, lixo, nó.
Eu sei disso tudo. Mas também sei de uma coisa que você, com todo conteúdo de copo cheio e toda estranheza de cobra de vidro, que não sabe de si, oscilando entre ora cobra ora lagarto, não sabe. Que vidro corta fundo, rasga pele, corta tendão. Pior que isso, copo de vidro vira caco que para no lixo. Mas copo de vidro também vira pó e esse ninguém vê. Você não vê. Nunca viu.
Enquanto você vem em cacos pra mim, cortando meus tendões, eu vou em pó de vidro e invado-me os pulmões até fazer cerol com muco e sangue. Afio cada fio de palavra e cada corda vocal...
Fiz o favor de não falar em demasia, visto que quem fala demais acaba não escutando a si mesmo. Fiz o favor de não contra-argumentar suas idéias tolas, sua frieza de copo de vidro e esse seu ar metódico de ver o mundo. Vai ver foi isso. Esse seu ar metódico não suportou o meu desprendimento e acabou quebrando o copo. É assim mesmo. Liga não. Os cacos cortam, cortam bem, menina. Cortam fundo. Sua mãe fez bem em ensinar que é bom se calçar depois de tudo feito. Mas não só isso que se aprende não. É difícil, né? Ah, esquece, não precisa entender.
Acabo aqui: te cortando, lentamente. Espedaçando você, cobra de vidro. Que de cobra não tem nada. Sabia que se aprende a se calçar depois de ter cortado o pé. É preciso cortar o pé. Sua mãezinha não falou? Aposto que não. Sua mãezinha é egoísta, sabia? Te poupou a dor. Que estrago que ela fez em você. Olha como sua pele é lisinha. Gente de verdade tem a pele desfigurada, pra acompanhar a alma. Se eu fosse você, corria logo. Pega um caco de casco de cerveja e faz um talho nessa sua cara. Vai, acompanha a sua alma. Ela é sua.

Mas eu sei. Eu vi. Você, não.
Você não sabe nada. Nunca soube... Ah, pode comprar quantos jogos de copos de cristal quiser porque a questão não é essa. Não é agora. Sempre foi assim: Irremediável.

depois de uma pergunta, uma resposta.

-você ainda tá em demolição?

sempre. mas não tô na demolição, entende?
o processo de demolição é consatanre. pra não se habituar com que se tem e estagnar...
tô tentando... pra isso,troco de imagem.
e por isso eu troco sempre. não quero me habituar a mim mesmo. ser sempre eu mesmo me cansa!

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Carta ao sorriso.

"a amizade é um meio de nos isolarmos da humanidade e cultivarmos algumas pessoas".
Drummond quem disse.Concordo em parte. Gosto da ideia de cultivar os outros porque isso nos aproxima de modo diferente. E cultivar algumas pessoas é um trabalho, acima de tudo, dignificante. Isso nos faz diferentes. Nossas ações, pensamento tornam-se diferentes. Coisas assim fazem com que outros não nos compreendam. Pessoas comuns, com pensamentos medíocres nunca irão entender um abraço apertado, um beijo, uma risada rasgada daquelas que todos ouvem e poucos compreendem e compartilham.Pra esses que não entendem só devemos fazer com que eles vejam!Vejam que não temos o pudor em sermos quem somos e como somos: Humanos. Por vezes o verbo não se faz necessário para nós, visto que já sabemos do que o outro precisa. E isso é possível porque temos uma Luz que é alimentada pela vida do outro.Por isso que somos diferentes. Porque temos essa Luz. Porque temos algo que nos une, que forma a Amizade: o Amor: o Deus.
Quando digo TE AMO, desejo o Deus e a Luz e direciono a minha vida para alimentar a sua Luz, tudo ao mesmo tempo. E quando damos um sorriso, um abraço um beijo ou até mesmo uma risada significa que as nossas energias entraram num choque tão grande que transcenderam a palavra dita e audível e se transformaram em nós mesmos, juntos, a personificação do Amor, do Deus, da própria Luz. Essa personificação tem nome. Ela se chama Amizade.

Obrigado pela Vida que alimenta a minha Luz!
TE AMO!
"Cada um pode com a força que tem na leveza e na doçura de ser feliz."
[Vanessa da Mata]

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Carta ao espelho.

salve!!

Como tem passado? Espero que bem. Este semestre tenho pensado bastante sobre minhas escolhas, gostos, inclinações e estou conseguindo, na medida do [im]possível, estabelecer conexões entre minhas aptidões e gostos, a fim de transformar em algo. Algo que seja mais que visual. Algo em que eu possa realizar de dentro-pra-fora, com o propósito de mostrar[-me] livremente[ou quase] ao mundo e causar-lhe afetações. Talvez o meu contato com o teatro esteja me influenciando durante esse tempo todo. Ou não. É difícil assumir esse compromisso, mas tenho que tentar. Me falta certa lucidez ao fazer escolhas. Não sou bom nisso. Em fazer escolhas. Odeio a idéia de ter que me prender a uma escolha. Sou instável e essa instabilidade que é igual a mim, deixa-me sem forma. E é assim que me vejo: Algo sem forma. Gosto disso porque, já que não tenho forma definida, posso, na hora que me convir, assumir a forma que eu quiser e depois, desmanchar isso tudo. Ando vendo filmes, assistindo peças de teatro, exposições, ouvindo músicas...e acabei lembrando de uma coisa que você havia me falado, que eu tenho um traço expressionista.
No primeiro momento, não tinha muito me agradado com isso, de ser “expressionista”. Minha associação direta da palavra foi a Van Gogh e, confesso, por não conhecer a sua história e tampouco sua arte, não gostava dele. Tinha implicância com coisas que não fossem brasileiras, para me inspirar, guiar ou qualquer coisa. Prezo por certa brasilidade... Andei revendo os meus trabalhos e consegui enxergar alguma coisa. Meus trabalhos, os traços, parecem ser feitos com pressa, com vontade, desespero. Não sei, parece-me, agora, que eu quis falar alguma coisa e faltou a “boca” para fazê-lo. Aí, lembrei de Van Gogh, Beethoven, dos traços fortes e a “desconstrução” da forma de Picasso, Ivan Serpa, Bacon; dos textos de uma dramaturga chamada Sarah Kanne, do também do dramaturgo Peter Brook e do escritor Anton Tchekhov.
É nisso tudo que estou mergulhado agora. Não deixei de praticar. Ando criando, experimentando, tentando me achar nisso tudo.Tentando achar meu “estilo”.
Você sabe me dizer se há quem trabalhe, pesquise o expressionismo ou a arte de Picasso ou algum desses que eu mencionei? Gostaria de estudá-los mais profundamente.

Um abraço.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Um fragmento que, não propriamente, fará parte da História.

-... parece-me que há um delírio... como em uma febre alta, um estado que transcende a lucidez, uma espécie de sonho, confuso.
Pega a caneca de louça vermelha. Põe o café.Toma todo o café da garrafa, lê sem atenção a correspondência que está há três dias em cima da mesa da cozinha.


De repente, uma fração de lucidez e possível indignação sobre a vida
e ...
a sensação de que tudo que foi feito não surtiu efeito,
em vão...
decepção! por não ter as coisas e pessoas do modo que imagina e espera. Relê a correspondência. Era uma carta da Nina dizendo que ficaria por mais um semestre em Madri porque era linda e porque tinham renovado o contrato dela por mais seis meses.

- Merda!

Depois de uns minutos disse para si, mas olhando para a carta:

- Que bom que estão gostando do seu trabalho. Você tem talento...talento para me deixar puto nesse buraco. E ainda vamos nos casar...


Indignou-se com a capacidade de tentar cobrir a carne viva, exposta da vida real com fantasias, sonhos. Quando se depara com o real - que choca-, o peito bate com disritmia...

"... tudo aqui é muito lindo, Carlos. Você precisa vir pra Madri. As coisas acontecem aqui. Sabe que nem sinto saudades do Brasil?..."

O incômodo, a dor que é a própria vida. Aqui, Carlos deixa de sonhar:

- O dia, lá fora, no mundo, está tão bonito. Todos felizes com a chegada do circo, pensou. Era como se o amor tivesse chegado com o domingo. O domingo que parece o último dia. Último, solitário, frio, vazio, humano. - É o domingo. Disse para si.
- O meu domingo chove... o do resto do mundo, não.E em Madri...
...
Confusão mental. E em um surto causado pela dor: Delírio. Mais. Pega a faca e, impulsivamente, faz ponta num toco de lápis esquecido na fruteira com três maçãs, uma banana apodrecida, uma laranja mofada, papéis velhos e cigarros apagados:

Com minhas tolas incertezas – tantas
- teci a mortalha do corpo em mim ainda vivo.
O corpo não comigo é sopro
Que se pode pegar com mãos não.
Vida fio de navalha, corta corpo vil e sangra.
Esvaiu-se alma, riso resto.
Acabou.

Confuso e indignado com o próprio ser acaba por matar a poesia que nele também é viva, parte dele, com a existência da verdade – mesmo ela sendo difícil de se ver - . Põe a poesia como um entorpecente do ser poeta, que de nada vale, a poesia. A não ser para embriagar a alma em farrapos...

Vem à tona todos os sentidos misturados, como se fossem eles - os sentimentos e eles, propriamente - um só. Sinestesia. Senta em frente à máquina de escrever, que fica numa mesinha de madeira maciça em frente a janela e escreve, de pés descalços, sem camisa, em vermelho:

- Por quê?

Auto pergunta-se, depois de tanto sentir.
já entorpecido de si, ameniza a própria dor de ser. Bebe café. A alma,lágrima.
Eis o ponto cego: a dimensão de dentro do próprio ser. Ele, dentro, que é a própria confusão, o acidente de si mesmo.
a vida esvaindo-se, o sol apagado pela boca do anjo que o engole e leva: leva a luz e deixa o vazio - de novo -, o frio, o anti-ninho. A morte.
despede-se da vida, de si mesmo afogado nas suas próprias verdades...na sua própria dor, na sua própria vida.
Docemente. Mais um dia, a vida o matou...

Passam-se sete meses

: agora, que não sou mais um feto, que não tenho a proteção de um ventre e todos os cuidados maternos intra-uterinos, sou impelido a respirar um ar pesado e sujo, de um mundo torpe e caótico que também ajudei a fazer. Um mundo que odeio com tanto amor. Um mundo que antes de me deixar vivo, me mata, se não me movo. É preciso sair do útero porque ele te trai. Se ficamos por pouco tempo, nos tiram a maturidade e somos cuspidos faltando parte. Se ficamos por mais tempo, nos cospem além de maduros.Como frutas mofadas e podres. A única possibilidade humana de ser vivo é ficar fora do útero e deixar de ser completo. É machucar-se, ter faltas, vazios, desejos, risos. E doer. Por isso, decidiu que não poderia mais ficar dentro de casa nem mais um minuto.
Do jeito que estava foi porta a fora.

-Eu mesmo cuspi-me do útero-casa, assim. E com o instinto de animal que sou, andei até achar o mar. E ali estávamos os três:
o mar, o mundo, Eu e mais ninguém.
senti o infinito tão intensamente solto que invejei mais uma vez(porque invejava sempre!)o mundo, o mar e o universo. Isso é uma injustiça maior do que tudo.
Eu não quero acabar um dia. Não.

Carlos ficou ali, entre o mar e o mundo por alguns minutos. Até que o mar urrou para ele em forma de ressaca, como se estivesse expulsando-o dali, como se o dessesse:

- Vá embora! Saia! Não se aproxime!

Carlos não se intimidou com o mar e urrou pra ele também. Agora, eram dois leões e o mundo.
Carlos atacou o mar de peito aberto, e como toda fera tem presas, o mar mastigou Carlos inteiro e Carlos, Carlos batia no mar, dava-lhe patadas, urrava: mais. Neste ínterim, o mundo estava lá e não fazia nada porque não sabia fazer nada além de ser mundo.
Mar é bicho brabo e Carlos sabia disso. Só que Carlos é bicho traiçoeiro. Pior que isso, é bicho-homem. Mas depois de tanto um bater no outro e outro bater no um, suas feridas vazaram e o líquido quente de Carlos e o líquido gelado do mar se misturaram e formaram uma pasta quase homogênea. O sangue do mundo.
O bicho-mar, cansado, cuspiu o bicho-Carlos no mesmo instante em que ele cuspira-se do mar. Saiu da boca do mar. Peito aberto e arranhado, seus cabelos lambidos. Cheio até a alma de areia. Seu corpo e todo resto lavado de água, sal e sangue.

-Andei devagar até a areia e parei. De pé. De frente pro mar. Como antes.

Sentiu a arrebatadora ventania fria dos dias de agosto. Percebeu que seu corpo, quando lutava com o bicho-mar e consigo, era verão. Fora do mar, seu corpo era inverno como o mês de agosto.
Sentiu frio de arrepiar a nuca, escamar a pele, bater o queixo e doer as articulações:
estava feliz.

Após reconhecer a natureza em si e reconhecer-se nela, foi. Andou pelo mundo, que no final das contas, também era ele mesmo.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Que mistério tem Clarice?



,e ficou sozinho no salão repleto de gavetas com partes da vida dela. A irmã, de cabelos curtos, novos, escarlate, deixava-o para sentir sozinho, com ele mesmo. O salão cheio de pessoas reverberou todo o som por elas produzido. Quase uma gritaria.
No momento, por um momento, suportou. Mas, o incômodo comeu a tolerância e o tomou de todo. Sentiu nervoso de ver e sentir tanta gente. Angústia de ouvir o bater das gavetas, como se todos procurassem desesperadamente por algo. O que seria?
Desistiu.
Saiu tensamente angustiado do salão.
Foi vê-la falar. Migrou, agora, para um estado de calma e quase paz. Ela rígida, com o sotaque, fazia-se - quase - difícil de ser compreendida. Em, sua aparição plana, para ele, uma espécie de epifania. Viu que ela tinha sotaque e admirou-se. O som da voz. A própria voz. Ela inteira: apresentava-se por detrás de uma espessa camada enigmática. Ela. Que mistério tem?
E lendo suas palavras, agora entende, não lê somente um grupamento de letras que formam palavras, que formam frases, que, por fim (?) formam idéias. Não. Lendo suas palavras ele descobre que,
na verdade lê ela mesma. Em forma de uma literatura que dói. Porque é a própria vida. Quase fabulada. Ela, que mistério tem? Todos.
Nenhum.
Ela: o próprio mistério. Ela:
universo.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

divagações...divagações...


O relógio me prende a um estado contínuo de estar. Mas é que sou e ponto. E ponto? Não. Além de ser, estou. Sim! Estou sendo. E estar sendo é muita coisa. Isto é bom. Mantém vivo, tudo. Em absoluto. O dom de existir dado pelas dores e pelas não-dores do sentir revigora o corpo [gasto pelo mesmo tempo] que luta consigo mesmo na busca da auto-afirmação de ser o que é e o que se é e: corpo vivo.
Então, se sou corpo vivo, devo ter por necessidade - se não tenho, necessito necessitar - sentir a dor que é a condição de estar vivo. Sentir o todo no tudo de mim: o mundo.O enfrentamento volátil entre o eu - mundo e o outro - mundo para que eu não seja capaz somente de ver-me. Mas ver o outro, causar-lhe afetações e sentir-me. Para ser livre. Mas, o que significa? Quanto a Liberdade, não sei e por isso penso. Tento. Descubro que pensar é difícil porque te exige [antes mesmo de pensar] o pensar em pensar. Ou seja, antes de pensar a coisa, pensar em pensar a coisa. Talvez isto justifique a ausência de prática do pensamento no mundo, transferindo as energias para o falar. Fala-se muito e não se pensa com o mesmo peso. A idéia que antes transitava, agora se mantém inerte em seu estado de Ser-para-sempre. E o Homem apodrece antes mesmo de germinar. Mas tudo isso porque ele é livre, porque pensa, ou melhor, acha que pensa que sabe o que é Liberdade. Prefiro não saber até depois de morto - não só de corpo -. Deixa a vida mais instigante e mais humanamente crua. Sem “ismos”, rótulos e enquadramentos. Disforme.

Como eu.
[080908]