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sábado, 30 de julho de 2011

Escarlate

A: - Sabe, no fundo eu sou um sentimental.

B: - Isso é Chico Buarque.

A: - É. Mas quando eu falo, é meu. Por isso digo, sabe, no fundo eu sou um sentimental...

B: - E por que você está dizendo isso agora?

A: - Porque nunca disse pro mundo. Nem pra mim. Então, digo pra você. Porque também é uma forma de dizer pra mim.

B: - Me diz. Agora eu sou eu e você. Ao mesmo tempo.

A: - Não sei se a vontade de falar e falar e falar vai suprir o quanto quero me abrir à você, a mim e ao mundo. A vontade que me dá é de rasgar a capa do peito e despejar tudo sobre as paredes desse quarto, sobre essa cama, sobre o chão. Por sobre toda essa casa. Em você... As coisas que quero dizer não cabem todas na boca. Preciso falar com o corpo todo.

B: - Eu te recebo. Vem.

e,ao ouvir isso, aquele corpo-voz fez-se todo líquido e despejou-se inteiro por sobre o outro corpo, pelos cômodos da casa. Escorreu como as águas do bonfim pelas escadas. Transbordou salas e corredores. Maremoteou-se tsunamizado. Agora, de tudo existente fez-se vermelho. Era ele perceptível ao mundo, com seu brilho escarlate. As palavras que não cabiam à boca formaram correntes marítmas e banharam os corpos que naquele quarto estavam: vermelhos, os dois ficaram a boiar.





Um. Porém dois.

Porque é você. Porque sou eu.


..., e, com o peito vermelho retinto, escreve manchado, na folha:


 - Eu escrevo. E quando você escreve o que eu escrevo, e leio,parece que está escrevendo pra mim. Parece-me que o que disse, eu não disse. Quando tudo dito e escrito saíram de sua boca e mão. Será talvez porque era o que você queria dizer e escrever, e não eu? Não sei dizer. Mais nada. Porque tudo o que eu disser será dito por você e não por mim. Não digo. Porque até o silêncio sai de você e não de mim.
Digo-não-digo. Falo/Me calo. E continuo a dizer. Por suas mãos e boca. Porque são minhas. Porque é você. Porque sou eu.

Ridiculamente interessante

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Conversa entre dois. Entre um.


A: - [silêncio]


B: - [silêncio]

A: - É...

B: - [silêncio]

A: - [silêncio]

B: - [silêncio]

A: - [silêncio]

B: - [silêncio]

A: - [silêncio]


B: - Acho que é isso.

A: - [silêncio]

B: - [silêncio]

A: - [silêncio]

B: - [silêncio]

A: - ...te amo.

B: - E nesse momento eu sinto um arrepio dentro. Meus olhos transbordam. É a vontade de dizer com a alma que também correspondo ao que me dizes. Sinto que a boca não é mais capaz de dizer com a mesma precisão uma frase tão pequena em estrutura, mas que imensa em dimensão. Te amo com tudo que tenho e existo. Todo.
Mas não me basto por isso.

A: - [silêncio]

B: - [silêncio]

A: - Não tenha medo de ser você por minha causa. Não se aprisione. Não se contenha. Seja livre e feliz. Se algo fugir do controle...

B: - E se [você] fugir?

A: - Prometo te avisar.

B: - O que fazer além do aviso?

A: - [silêncio]

B: - [silêncio]

A - B: - [silêncio]

AB: - [silêncio]

...







Não quero te ter

Não quero te ver. 
Fecho o álbum de fotografias. Apago seu número da agenda. deleto seus e-mails.
Não quero te ter.
Escondo com maquiagem as marcas de tuas mãos e da tua boca em meu corpo. E, por quase meio segundo eu te esqueço. A não ser quando fecho os olhos e te encontro todo em meus pensamentos.


Eu não sou o que você gostaria que eu fosse. Eu não caibo nos seus planos. Eu não sou aquela que vai te dar três filhos lindos e cuidar do seu cachorro. Não sou aquela que vai dividir contigo o sonho que você não vai realizar. Eu não te peço isso.Não sou uma boneca plástica. Sou mulher-carne. Eu  ofereço. Eu me ofereço. Portanto, não me dê como troco a sua indiferença. Me odeie, me deixe com raiva. Me use. Minta pra mim. Minta! Mas não me anule com a sutileza do vazio do corpo  morto. Não faça do meu corpo um objeto ignoto. Eu estou aqui. Você me vê. Eu sei.


Você pode ser sutil.

Mas não imperceptível.




E eu te vejo, 
                                         sim.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Sinto-me

Sinto-me. em um estado diferente. Entre sólido e liquefeito. Num estado de malemolência, de flexibilidade elástica. Sinto-me sinuoso em movimento Sou um quadril brasileiro. Coluna vertebral de gato vira-lata. transbordo-me. facilito-me. Sinto minha presença: em mim. No espaço. Por todos os espaços. Fluido, perpasso as superfíceis e mergulho fundo no interior do mundo. No interior das cabeças. No interior dos corpos. O que será, que será que está por vir? É o que virá. Um novo tempo onde eu existo todo. de modo supra-corporal, extra-sensível. Está por vir o que virá. E virá.

domingo, 5 de junho de 2011

véu

Você pode ser sutil.

Mas não imperceptível.




Eu te vejo, 
                                         sim.

Vampira



Depois de mais um dia, pararam todos, na verdade, alguns poucos, num bar, para comemorar ou mesmo tramar ou afogar a vida que se tinha. E lá engoliram copos de cerveja gelada, assim como o tempo. Fim de noite – ou o início dela – estavam todos. Ele e ela. Conversando e revelando alguns de seus segredos. Estavam se revelando um ao outro. Ele já tinha visto aquele corpo de mulher antes: já havia percebido suas curvas e sugestões de um segredo, ou um assunto, não tocado em roda aberta. Chegou a dizê-la, certa vez, que ela parecia agressiva, de beleza. Ela era uma mulher e se bastava na apresentação.
Trocados segredos, dividiram o mesmo espaço por afinidades e por, de algum modo, estarem ali afinados. Era outro assunto: outro propósito e outro lugar.
Entre a conversa boa e os copos sucessivos de cerveja, ela, qual gato carente, alisava seu corpo quente no corpo dele. E ele correspondia àquele ato. Imaginou aquela mulher-gato dentro de sua cabeça profana. Ela já o tinha feito anos-luz.
A vontade comia suas carnes bêbadas, assim como aquela diaba mordia seu ombro e beijava seu pescoço, a cada abraço dado. Ela estava domesticando aquele corpo de homem-aberto -no –espaço. Ele correspondia à domesticação de modo sutil. A bandida já tinha a quem dominar. O outro homem estava ali, seco. A vampira já havia chupado todo o seu sangue. Ele seria o próximo. Ela armou a cama para este homem deitar e servir-lhe de banquete. Ele, todo alimento, estava ali, à espera da dentada que o consumiria.

- Você está maluca. Perdeu a noção?! Olha quanta gente aqui.

- E qual o problema? Se eu sou maluca, não tenho noção. Sou toda pulsão. Gente. Essa gente não vê nada além. Todos bêbados, como nós. A diferença é que nós vemos. Eles, não. Essa gente é comum, conformada. Catequizada. Nós não fomos catequizados, gato. E eu não quero nada além do que você já imaginou... Ou pensa que eu não entrei na tua cabeça de homem e vasculhei todos os seus pensamentos? Eu percorri por cada beco imundo e escuro da tua cabeça, vi todos os seus desesperos, dúvidas e desejos. Fazendo um juízo de valoração, você, no mercado, vale a mesma coisa que eu valho: nada.

O homem ficou abismado com a certeza das palavras daquela mulher. Porque era verdade. Estava inerme, quase completamente entregue.

- ...e ele? Você não vai fazer isso. Ele está aqui e isso é sacanagem. O cara é gente boa e gosto dele...

- Eu também, gato. Gosto dele. Mas isso pra mim não é impedimento. Nem tabu. Ai, vocês, homens. São muito regrados. Depois dizem que não entendem as mulheres. Somos muito mais simples de entender do que vocês.
 - Pára com isso. Você é uma bandida, sabia? Eu quero, quero dizer, não posso. Não devo.

O espírito cristão daquele homem já estava corrompido antes mesmo d’ele nascer. Mas não sabia disso. A mulher disfarçou e arrastou o homem para uma parte quase sem luz da rua. Jogou suas costas retas contra-parede.

- E agora?!

O homem, sem saída aparente, respirou fundo e

- olha isso é uma loucura não é justo eu sei você é linda mas isso não pode acontecer principalmente porque não quero causar danos à ninguém o que os outros vão pensar você está maluca não isso não é legal se ele não existisse isso é outra coisa precisamos pensar nisso  não tem nada a ver eu acho eu acho que não rola não pode rolar isso é loucura eles perceberam ai, meu deus você não tem noção mesmo pára de me tocar tira a mão de mim não podemos fazer isso pára eu não tenho esse direito nós não podem...
Os anjos todos perderam suas asas e caíram como pacotes pesados por sobre o chão da Terra. Os santos do homem-cristão foram decapitados e suas cabeças santas rolaram ladeira abaixo. Suas costas envergaram e seus pêlos todos eriçaram qual gato em perigo. Ali, ele foi devorado. Ela o deu um beijo na boca. E ele nela. A mulher agarrou o corpo da sua presa e chupou sua língua, para que o homem ficasse sem palavra alguma. Percorreu com as setenta e sete mãos todo o  homem, de fora à dentro. Sua língua trilhava caminhos pela extensão daquele corpo. Com uma das mãos, pegou-lhe pelos cabelos, puxou sua cabeça para o lado. Como uma vampira, mordeu-lhe o pescoço. Respirava quente no buraco negro de seu ouvido.  E, num esforço, ele era somente um corpo sendo devorado e correspondendo a cada uma das setenta e sete mãos daquela mulher. Estava entregue. Presente. Pulsante.  Ereto.  Ele também era todo desejo: um desejo proibido. Eram puro sexo.  
Quando soltou a boca e o corpo daquela carcaça de homem, ele, paralisado, ficou a olhar, vidrado nela.
Depois de ter cumprido seu propósito, aquele corpo apocalíptico se riu inteiro para o corpo estático do homem. Explodiu em uma gargalhada diabólica. E saiu de den’da escuridão, com a cabeleira negra e revolta para o lado. O sexo aceso, suas cadeiras num requebro desumano, ela passa pelas cabeças de santos espalhadas pela rua, entre anjos caídos. Volta para a conversa de bar, cínica, como se nada tivesse ocorrido. Enche o copo de cerveja. Bebe. Abraça aquele outro homem domesticado e sugado. Dá-lhe um beijo na testa, piedosa, como quem o abençoa. Entre os corpos bêbados, se ri, como uma inocente.
: a noite continuou e ninguém percebeu nada.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Dias Felizes

"Tudo dito, guarde-me contigo pq já sou tua." (samuel Beckett, Dias Felizes.)

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Só peço que me leve.

e os dois marcaram de se encontrar. Ele chegou. Procurou. Não achou. Estava com medo. Uma sensação diferente. Acho que era medo. do que poderia acontecer. Ou não acontecer. ele não estava lá: ninguém estava. percorreu por todo o prédio e ninguém conhecido.
sua respiração ficou um tanto ofegante. Era algo. Algo ocorrendo em seu corpo nem um pouco dócil: o corpo de dentro. era um misto de pulsão freudiana com senso de realidade. Era seu id querendo matar o superego, e vice-versa. matar de prazer, de amor, qualquer coisa.
 Sentou-se. Só. Num canto pouco iluminado. Só com ele mesmo. À espera. À espera somente. Do outro corpo que vem. Em algum momento ele vai chegar.

 - e se não chegar?
Por que você não existe mais diante dos meus olhos? eu me disponho todo.
Canto.
Eu corto o canto
e num canto
espero.
calado.
Porque você me violenta.


: se não chegar. Ele vai morrer. Por mais uns dias.

 - Quem sabe?


Mas, ao fim, já mutilado pelo câncer da espera, foi. andou. encontrou o outro corpo de pé. Não olhando. entrou na sala. Abraçaram-se. era um abraço que continha uma conversa. um diálogo que não necessariamente era para o outro ouvir. Uma descarga de texto gestual. foram embora.   Seus olhos gritavam

 - Só peço que me leve.

Foi o que aconteceu. foi levado pelos olhos aguados e lindos, represados o doutro corpo, que ao ler as palavras do papel-peito-pulsante, escrito em vermelho, lançou-se todo em olhar e vontade por dentro dos olhos daquele corpo que esperava.

E assim saíram horizonte a fora: um corpo querendo querer habitar o outro.  querendo querer ser: um.

E o foram.


"Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor...
"

domingo, 29 de maio de 2011

Alguém disse que o mundo não era tão chato



Alguém disse que o mundo não era tão chato. Alguém disse que era bom viver.
Sentiu-se subversivo por um momento. Mas voltou atrás. O que significa, então, ser subversivo, se a vida é uma só? Desistiu do rótulo e mergulhou com todo o corpo naquilo que achou conveniente. Não coerente. Estava feliz por descobrir estas coisas. As mesmas coisas já descobertas há tanto tempo, por tanta gente. Tudo sempre esteve ali. Ele é que não via porque insistia em  andar no escuro.
Pega o papel e ensaia escrever. Escrever uma carta, como se aquela fosse a primeira vez em que executaria tal ação. Pela primeira vez sentiu-se tão livre para escrever que paralisou a mão direita, porque era destro. Ficou imóvel, com a ponta do lápis no papel. A mão esperando o comando do corpo ficou ali. Ele não queria desperdiçar este momento, que poderia ser o único. Em sua mente, um turbilhão de palavras emboladas, todas famintas para escapar daquele corpo de homem. As palavras não pertencem ao concreto. São feitas para estar no ar. Etéreas.
Decidiu por não decidir pensar.

 - De repente, pode ser a única oportunidade de se ser livre para escrever, pensar, falar e ser livre...

Então, de modo muito humano, e irracional, escreveu na superfície aviltante do papel branco:

 - O que você tem? Me diz.  Passei dois dias com o cheiro do teu corpo no meu. Minhas mãos eram teu corpo. Minha cabeça, minha boca. Minha vontade, que era você. A vontade de te ter. De ser todo seu. O que você tem? Uma semana foi o bastante pra me tirar completamente da órbita, da linha da razão. Você me suspendeu no ar. Tirou toda a gravidade que me deixava fixo no chão. Sua voz. Sua voz come meus tímpanos tão docemente que me desfaço em desejo e vontade e tudo... Como eu queria que nada disso tivesse acontecido...  só pra acontecer tudo. Novamente. Acho que estou ficando louco. Peço que não leve a mal. Peço que não me leve a mal. Peço que me leve.

Respirou tão fundo, que acabou por consumir todo ar do planeta. Sentiu-se exausto por ter expulsado todo aquele verbo dentro de si, represado.
Acendeu um cigarro. Pegou um copo de licor. Sentou-se relaxado na cadeira antiga, na varanda, de frente pra qualquer lugar: porque o lugar era o que menos importava naquele momento de suspensão. Ele estava em seu não-lugar. Com nenhuma incerteza. Era ele e todo aquele verbo – desejo - liberdade no ar, dançando qual fumaça do cigarro. Dançando qual corpo imaterial num duo com o outro corpo. Completamente livres.


Notas sobre um dia depois de tantos outros


Notas sobre um dia depois de tantos outros


Aos ouvidos a cantilena que desperta e mastiga todarquitetura corporal, além de encurralar o espírito no canto do quartescuro da subjetividade:
 “Existirmos: a que será que se destina?...”
É o tipo de pergunta que não se é para responder. Mas é. É o tipo de pergunta que é para ser buscada. Vivida. Ele pensa, com o ser quase inteiramente mergulhado em sua lama particular. Em sua frente o caderno qual anota toda e qualquer sinapse. Nele  escreve para um outro corpo. Mas também fala de si-para-si:
 - Eu tenho o potencial para arrastar tudo que estiver ao meu entorno, assim como uma tromba d’água. Sou uma catástrofe desmedida. Envolvo todo mundo nas minhas tempestades e, por onde passo, não deixo pedra-sobre-pedra. Hoje, quem chove é o tempo. Permiti a natureza chover. É uma água que limpa. Que lava. Purifica. Mas, isento-me desta purificação. Derramo por sobre o rosto uma chuva ácida, contaminada. Cheia de agrotóxico. Descarrego uma chuva salobra, sem oxigênio.
Silencia o espírito gritante por um tempo. Ouve os pingos da chuva. Percebe-se. Retoma o diálogo consigo:
 - Estou aqui, sentado, vendo o tempo chover. Olho. Nada, além disso. Sob meu nariz a piscina que hoje não tem o azul de Amaralina, mas a cor de um pântano. Hoje, está vazio, quase. Estou sozinho, esperando pelo corpo que já foi embora. Tentando ver nos poucos corpos que vêm portadentro o corpo qual espero e espero e espero e espero.
Hoje, estou existindo de modo diferente. É um existir quase sutil, se não fosse pela angústia, pelos resquícios de choro-tempestade, e pela lembrança do momento em que me despi da pele e revelei-me a hecatombe com formas humanóides. Não posso dizer se estou feliz. Não posso. Sinto somente um vento que percorre os espaços entre meus órgãos e ossos.
Não sei o que fazer. Estou parado e angustiado por não estar em movimento. Estou com fome e com fome vou continuar porque não tenho o que comer. Somente este tempo, que não mata a minha fome. Eu precisava falar com alguém. Cheguei e você já não estava mais. Sofro. As coisas estão densas e tensas. O deus resolveu dormir até mais tarde e não veio comigo. Saí de casa e não disse pronde ia. Sem bilhetes, recados. Nada. Deixei tudo. As cores do meu corpo, o sorriso. A pouca coerência que me foi dada. Só trouxe a dor das costas, os olhos pesados; as marcas do rosto e a vontade de chorar um pouco mais. Estou completo, então. Acho que não. Eu não sei. Eu nunca sei. Mais uma vez eu tenho medo e paro na beira do abismo. Penso. Repenso. Fico parado.
É muito ruim e difícil morrer sozinho, parado. Na calmaria. O horóscopo disse que entrarei em uma fase muito boa. O sol iluminará a minha lua e, por isso, terei um “levante”. Sim. Estou vendo o “levante”: de toda a confusão que já sou e não me basto. Eu queria que estivesse aqui, comigo. Eu devia ter chegado mais cedo. Meu corpo hoje e ontem e anteontem se moldou para teu abraço forte, que se parece com o meu. O meu abraço. Eu também quero abraçar o corpo que ontem eu machuquei e fiz sangrar...

Ele fez sangrar o corpo e depois, sangrou-se também. Não agüentou e abriu as comportas da represa. Caiu e rasgou-se nos cacos de si mesmo. Rasgou os olhos, pés e rompeu ligamentos e tendões. Cheio de fraturas e escoriações, seguiu para dentro de si. E, em sua via-sacra particular, caiu pela terceira vez. Sem que ninguém o visse.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Mal Secreto

** Ler escutando "Mal secreto", na voz da Gal.

[ http://www.4shared.com/audio/c5bNKOza/03_Mal_Secreto.htm ]


Tudo começou como um acaso desses. Conheceu o homem durante uma viagem que fez a negócios. Fora as estressantes e tensas reuniões com acionistas e representantes internacionais, trocou conversas tímidas durante a estrada e fez-se agradável e linda. Um sorriso de homem que sabe o que quer para uma mulher não é coisa corriqueira. Sentaram-se um ao lado do outro. E fluidas foram as conversas – mais. 

- Nossa, você passa uma segurança. Sabe mesmo o que pretende. Poucos homens são assim. E o mais interessantes disso tudo é que ainda é agradável, inteligente e tem bom humor...

- Sei bem o que quero e não desisto. Mas me vejo bem em você. Ouvi tua conversa no telefone e fiquei pensando nisso. Talvez tenha sido isso. Eu ter me aproximado...

- Pode ser.

Conversaram horas sobre trabalho, vida, amores, gostos e desgostos. Música, teatro, dança, verso, bebidas, sonhos, segredos, morte. E neste ambiente só deles, o cosmo favoreceu. A lua orbitou na casa dos seus signos, de uma só vez. Até que o silêncio se instaura. Longo. O silêncio das bocas. Os olhos se permitiram percorrer toda a alma de um e de outro. Tudo no silêncio do mundo. Os únicos que perturbavam a calmaria do universo eram seus corações desritmados. Até que o silêncio é quebrado pelo homem:

- Antes de morrermos, posso fazer uma coisa?

Ana responde com uma pergunta, mas sabe o que ele quer fazer.

- O quê?

Silenciosamente. Um beijo.

 Um toque, um quase-amor. E ali ficaram durante toda a viagem. Como se aquele contato fosse de outros tempos. Ela que não é de se entregar, doou-se toda a ele. Ele dedicou-se àquele momento, que se suspendeu no ar tenso da viagem. Eram somente eles. Eram dois clandestinos escondidos, um dentro do outro, debaixo do grosso cobertor.
- Seus olhos são bonitos – diz Ana, de modo bem espontâneo e atento ao homem que era dela, naquele recorte de tempo-não-tempo, suspenso no ar. Ele devolveu um sorriso.
Tudo permaneceu indo e lindo. A viagem findou-se. Cada qual seguiu seus descaminhos e prometeram se encontrar. Ela estava bem. Passou o dia com o cheiro do corpo do homem em seu corpo, como se ele mesmo estivesse ali, de todo. Ele, não se sabe nada não.  Só que seu sorriso era lindo e seguro e feliz.

Alguns dias se passaram. Ana ainda vivia aquela situação tão atípica. Resolveu procurar pelo homem na internet.Não tinha o costume de fazer tal coisa. Na verdade, não tinha o costume de ter costume nenhum. Não é do tipo que se entrega. E brigando consigo, venceu-se o orgulho e despiu-se de toda armadura contra o mundo. Desejou com toda sua vida ser daquele homem e foi em parte nos dias anteriores e pensamentos. Todos os dias subseqüentes. Ana Achou o homem, seu homem. Achou mais do que gostaria. Ele era homem de outra mulher. Felizes, as fotografias esmurraram seus olhos, seu peito, seu corpo e sua alma toda. Um engodo, um nojo, um desgosto uma tempestade. Com uma mulher de escorpião com ascendente em leão não se brinca. É puro veneno. E, diante das fotografias diz com uma voz que vem das entranhas:

- Não. Não posso ficar com raiva. Mas tô. Com ódio. A vontade é de gritar um grito de morte, de desgraça, de vomitar gafanhotos, todas as sete pragas do Egito. Todas, todas elas. Em cima de você... Eu sei. Não posso ficar com raiva... Aliás, posso e posso e devo e quero e vou e estou e estou sendo e sou. Raiva. Do átomo às pontas dos cabelos. Com pude?!

Ela se ri de uma forma nunca antes experimentada e desesperada e, entre esse riso grotesco, não sabe se chora, se odeia e se se odeia e grita. Diante do espelho seu rosto desmancha junto com a maquiagem preta dos olhos. Passa as mãos amargas e odiosas por sobre os cabelos desgrenhados e escorre-as pelo rosto, borrando a boca vermelha. E ela inteira chora e grita e geme e se atira e atira palavras gritantes aos quatro cantos do mundo-quarto.

- AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHH!
   Filho da puta filho da puta te odeio te amo e não amo e amo e odeio canalha viado viado filho da puta ignorante mentiroso lindo idiota você me enganou farsante tratante gostoso moleque mentiroso eu sou uma burra bura bura burra muito burra e burra eu te mato e mato e me mato e morro e volto e  te odeio e odeio e amo e odeio e amo eu não quero e não posso e posso e te quero morto e vivo te detesto sai do meu corpo da minha pele da minha boca da minha cabeça  AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHH!!!!

Arranca a roupa. Entra no banheiro nua. Tranca a porta para que ninguém veja que ela é um mal. Prefere ser um mal secreto. Para os outros. Para si. Abre o chuveiro. A luz apagada é proposital, para não ver sua alma corrosiva. Ali, Ana radioativa e explosiva, ferve a água que cai em seu corpo-ódio. O universo gira ao contrário por conta de todo bolo de rancor e praga e corrosão deste corpo de mulher de escorpião. Escorre toda pelo Box.

 Naquela noite, Ana morreu, para acordar no dia seguinte. Se o sol tiver coragem de nascer.






sábado, 30 de abril de 2011

As crianças morrem quando as virgens são defloradas. Mas sempre há um vestígio.


Ela: Oi... Eu disse "Oi"!

Ele: (Sem olhar para Ela) Oi.

Ela: Pode me informar as horas?

Ele: Vinte pra meia noite.

Ela: ah, tá cedo... Você está sozinho?

Ele: É o que parece, não?

Ela: (Dá um sorriso amarelo, entre sem graça e simpática)è...eu estava te reparando...

Ele: (Olha para Ela com ar blasé, volta a olhar para o nada)Hum...(bebe)

Ela: (Olha para a mesa) Você tem cigarros.

Ele: Tenho.

Ela: Posso pegar um? (esticando o braço para fazê-lo)

Ele: Não.

Ela: (retraindo o braço, como um choque. Está sem graça) Não?! Porquê? Olha eu tenho cara de novinha, eu sei, todo mundo diz isso, mas eu fum...

Ele: Não. O cigarro é meu.

Ela: Mas o que custa me dar um cigarrinho só?! Você tem um maço cheio, um cigarro não vai fazer falta.

Ele: Vou fumar menos um por sua causa.

Ela: Nossa, que egoísta...

Ele: pior você, que além de ser uma criança chata, ainda não tem dinheiro e pede as coisas dos outros.

Ela: (revoltada mas cheia de tesão)Criança, é... (debruça na mesa, fica cara a cara com ele, circula a borda do copo com o dedo indicador) Que eu saiba criança que faz criança não é criança, gato. Me dá um cigarro, vai?

Ele: Não que-ro.

Ela: E se eu pegar a força?

Ele: Tenta a sorte, putinha.

Ela: (ri maliciosamente)Se eu quiser, eu pego. Pego o que eu quiser.

Ele: (ri contido) É?

Ela: Teus dentes são bonitos. Tem um sorriso bonito.

Ele: Foda-se.

Ela: Grosso!

Ele: Putimha. (pausa) Tem as unhas e boca pintada com vermelho carne e aparelho nos dentes, que não permite esquecer a idade que tem. Um fado. As crianças morrem quando as virgens são defloradas, mas sempre há um vestígio. Vai embora daqui.

Ela: Qual é a tua, cara? Você é maluco?

Ele: Anda, vai embora.

Ela: Tu é viado, né? Logo vi, esse jeitinho todo sé...

Ele: (Dá um beijo nEla, aperta sua bunda com uma mão e com a outra segura-a pelos cabelos) Agora vai embora.

Ela: (Sem fôlego) Nossa tu é tarado, isso sim.

Ele: Você ainda não viu nada...

Os dois riem juntos, um para o outro. Ele dá um cigarro para ela. Ela acende o cigarro vitoriosa. Traga, solta a fumaça na cara dele.




[continua...]

quarta-feira, 2 de março de 2011

Recado para ninguém. Mas sempre haverá um para escutar.

Para ninguém, dos quatro cantos do mundo :Gritaremos para todo o mundo o que eu somos e acreditamos. E se ainda assim nos calarem a voz, gritaremos com o sangue que corre em nossas veias abertas. E, se ainda assim, nos secarem todo o sangue, gritaremos com o corpo em posição de combate. E se nos matarem ainda o corpo, gritaremos com o espírito porque esse, jamais morrerá.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Memórias

Às vezes me pego percorrendo cada linha do teu corpo , contornando a tua pele, recorrendo à memória aqueles momentos lindos que passamos juntos, cada quadro de cena. tudo inventado por mim. talvez você não saiba que estas memórias criadas existem, só comigo. Não tem problema, eu acho. E em frente ao espelho eu visto as peças de memória que você deixou no armário, mas que nunca esqueci. coloco também, por cima, toda a capa da memória inventada, com cada frase que você não disse e todo o carinho que não me deu. Inevitavelmente, acabo por vestir a última peça que deixou comigo. Enxarcada e pesada, visto o tecido poído. Ouço uma música, qualquer música que reforça este momento.E os outros todos quais não esqueço porque sou um álbum de fotografias antigas, amareladas, rasgadas. Porém, um álbum que conta uma história, mesmo que inventada, assim como você.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Um estrangeiro

Estava atarefado demais em suas confusões diárias. Ser ele mesmo dá um trabalho do cão. Nunca se encontra em nada. Nem nele mesmo. Aconteceu de participar de uma  atividade, um trabalho. Foi lá. Aprovado. Trabalho, mais um. No meio disso tudo descobriu-se mais perdido que antes. Não fazia parte daquele todo.era estranho para os outros e, principalmente, para si, naquele cenário.Recebeu uma ligação que acabou por enrolar mais ainda a sua cabeça. É porque além do trabalho mal pago, das contas não pagas, do relacionamento mal resolvido com uma mulher completamente diferente dele, em partes, ainda tinha a sua cabeça. E decidiu, no meio do furacão, não fazer mais nada.Pois é, parou. Ao evento que fora convidado a participar, não foi e sangrou por isso.Sangrou por dentro. e por fora, suor. Muito suor. Em meio à rua, entre as pessoas que passavam apressadas, com o sol derretendo o cérebro do mundo e o calor brotando do chão fervente, ele, com uma camisa social abotoada até o pescoço, calça de linho e sapatos encerados, com os olhos ardendo de tanta luz, perguntou:
 - Por que a confusão é uma parte de mim?
E no mesmo ínterim, quase como um corte à pergunta, ele mesmo responde, mas como se fosse outro,

 - Não se sabe mesmo...

Resolveu ir para casa. Não se recordou de ter compromissos, mais nada, além de passar pela varanda da casa, tirar os sapatos, meias e entrar de roupa no chuveiro. Ficou por lá alguns bons minutos. Depois disso. deitou na cama e apagou.

Dia seguinte acordou. A casa escancarada, como havia deixado no dia anterior. A pasta com os relatórios estava jogada no corredor. Tomou outro banho e vestiu-se, silenciosamente. Foi ao boteco da esquina, tomou um pingado e fumou um cigarro. Trabalhou. Foi encontrar com a mulher em um restaurante, na hora do almoço. Ela falava copiosamente, quase que sem respirar sobre o relacionamento deles. Ela precisava de mais. além do que ele estava dando à ela. Reclamava de atenção, carinho,
 - Você não repara em mim ai esse vento vai acabar com meu cabelo por que você escolheu uma mesa na área de fumantes você também provoca ah sabe a estela então meu filho pegou o marido com outra Nossa te falei que vi um vestido chiquérrimo pra ir na festa da Laura mas achei um pouco caro droga minha unha quebrou aqui tá muito quente o meu suco é sem açúcar você já foi ver a sua roupa pro casamento do seu primo às vezes parece que você não bate bem da cabeça esqueci de te falar o Umberto vai ser pai e eu que pensei que ele fosse gay menino essa comida demora assim mesmo o vestido ficou tão bem em mim que eu acho que vou fazer esse sacr

- Cala a boca. Acabou.
 - Acabou o quê?
_ Tudo. Noivado, conversa, sexo, paciência, amor. Acabou tudo. Não aguento mais a sua voz. Você está corroendo meus miolos com essa voz chata. Tô indo embora. Não me liga, não vem atrás de mim. Me esquece. Some.

Ela ficou lá, na mesa petrificada. Ele pegou um táxi e sumiu entre os carros. Foi pro escritório e entre a neblina em seus olhos, pediu demissão. Desligou-se.Cortou o elo. dalí, caminhou até a praia. tirou a roupa e, de cueca, decidiu mergulhar no mar. Mergulhou, tomou um caldo daqueles. Apanhou da natureza como um judas em dia de sábado de aleluia. Foi cuspido pra areia, sentou-se para se recuperar. Decidiu que casaria, sim, mas com ele mesmo. selou um compromisso com seu próprio eu. para tentar, junto de si, se arrumar, se achar. caminhou rumo a um horizonte distante. Sem destino de chegada. Próxima parada: quem sabe?
Abortivo. ele sabe que é. Não se cupla por isso. Só quer ir embora. Não esperar por mais nada e mais ninguém. Mas precisa esperar um táxi, pelo menos... A espera por algo o faz morrer, a cada segundo. Aviltante momento. São nessas horas que ele é ele mesmo: um fugitivo, estrangeiro, genocida.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Ensolarado


Foi assim, no meio de tanta festa, barulho. Um calor imenso que saia dos corpos em festa. Era um dia de festa. Um carnaval fora de época. Fora da época dos comuns, porque pros que ali se reuniam, era um carnaval constante essa coisa que falam que é a vida. Pois foi, assim mesmo, inebriados pelo amarelo do sol, que se refletia em amarelo-festa. E se liquidificava em amarelo-bebida. Entre um grito e outro, uma gargalhada, um gesto forte da dança, ela fala pra ele, só pra ele: "eu te amo". Rasgou-se o vão do infinito. O vento parou, o mundo inteiro engatou a ré. A órbita do universo se desembestou. E todo bolo de palavra que estava por dentro do corpo dele, retida, se remoeu todinha. E num tempo mínimo, ele viu a vida de um sujeito que, até aquele momento, era descrente, mudar. A fala da moça saiu tão descarada pra ele que, mesmo ele sendo um ator constante, não conseguiu improvisar e devolveu com toda a sua vida a frase pra moça de seu olhos: "eu também te amo".
Ah, seu moço, como essa frase tava querendo sair. Foi a alforria de um pedaço de vida que se colocou livre no ar do mundo. E ali, eles juntos se aprometeram, de um se relampageuear nos braços do outro.
- Contigo, moça eu vou desatar tudo que é nó.
-Contigo moço, vou acertar o passo e voar com você pela abrangência do infinito, na velocidade rara de um OVNI.

E assim ele mais ela terminaram juntinhos, abraçados um na cintura do outro, dançando o forró mais lindo que se dançou debaixo daquela lona amarelada, sentindo a quentura daquele chamego, que só eles sabem. No mundo inteiro. E o amarelo continuou a brilhar e esquentar a moleira daquele povo todo. Só que não vinha mais do sol de meio dia, nem da cor da lona da festa. Muito menos da bebida. O amarelo que alumiava todo o globo da Terra saia da cabeça do moço e do sorriso daquela moça que devolvei a vida pro seu amor.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Uma mensagem de amor

Ele se riu, quando viu o recado dela. Não esperava que retornasse. Na verdade, esperava, sim. Mas é que ele tem tanta vergonha de dizer o que sente, que preferiu não cogitar a hipótese d'ela responder. E ele acabou por descobrir que, depois de algum tempo, as coisas vão ficando melhor. As feridas sempre cicatrizam, se remediadas. Não se via mais sozinho. Os dois passaram a mandar recados diários, um para o outro. Era uma tentativa de alguma coisa que ambos não sabia. era um atirar-se no escuro, sem coragem, medo, nada. Era só a ação de se lançar no mundo: no mundo deles dois.

Gostava de ler os recados dela e ficava imaginando suas expressões, desenhava seu rosto em cada pedaço de memória, construia uma voz: era uma voz linda e tão doce. Imaginava o tom de sua pele, a quentura de sua respiração em seu ouvido, quando ela dizia o nome dele.Do mesmo modo, ela escrevia em pedaços de papel o nome dos dois. sentava em frente ao espelho e imaginava como seriam os fins de semana, os começos e os meios - todos com ele. Gostava do que ele dizia, fazia. Ele era dela, em seus sonhos mais bonitos. Os dois eram lindos.

 Ela, ainda uma incógnita, cheia de incertezas, assim como ele. Ele era exatamente o que ela precisva. Ela era exatamente o que ele queria precisar.
E assim seguiram - se falando - até que um dia esses dois corpos, essas duas almas e suas tantas incertezas e belezas irão se fundir em um estalo de beijo, até que eles sejam um. Um, somente um. Um gesto, um gosto, um sorriso.Um abraço. Uma vida cuidando da outra. Uma luz.Uma brisa que acaricia a pele.Uma mensagem de amor.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Pois é

Pois é. Hoje, neste tempo presente, tô completamente desfavorecido e não pago. Nunca fui tão desnudado em toda minha vida. Tô me sentindo um passarinho preso na gaiola nossa de cada dia.

Capitalismo do Cão abre a temporada. E o próprio encardido me diz, com a boca cheia de dentes e as mãos cobertas de sangue dos meus companheiros, "Bem vindo ao lado oposto do gráfico". Deixo o meu crachá com o porteiro do edifício. Recebo um copo com cachaça e um bolo com recheio de chumbinho. Nada no bolso. Pego as mãos do Cão e esfrego no meu peito descamisado. Com o sangue dos meus oprimidos, pinto uma camisa, com um quê de socialismo.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Pergunta ao espelho.

Onde eu fracasso como artista?

Quando não me permito. Quando não deixo o mundo me atravessar o peito. Não sou um bom artista quando me coloco, mesmo que inconscientemente, em um lugar a parte, em relação ao outro: quando me prendo em mim. Acredito que o fazer artístico e humano provém do contato com o mundo, da implicação com ele. Do confronto com os outros. O confronto são os outros. Os outros do mundo. Os outros dentro de mim. Tem muita gente dentro de mim.
Se estou comigo, só comigo e mal comigo, de muito não adianta fazer porque o feito será uma resposta a mim – é claro que, além d’eu estar dentro de um universo – onde tudo ocorre ao meu redor e onde eu também participo das ações, estou em um outro universo: Eu. Estou no universo de mim mesmo, com minhas incertezas, agruras, com minhas deficiências, doenças e também risos, amores, sonhos, paixões...
O fracasso vem quando sou óbvio (coisa que detesto! Acredito que o óbvio, todos gostam e preferem porque é previsível. Já o viram e, por isso, não há margens de erro ou fracasso.); quando reproduzo os conceitos e trejeitos dos velhos de ontem. O novo é algo que ainda não se viu e, por isso, causa medo, incerteza. O novo é se jogar no escuro, estar à sua própria sorte. Nesta fração de tempo é você e mais ninguém. Sem o mundo, sem o Deus. Sem nada, só o nada e você mesmo. Sou um fracasso (também) como artista quando não dou este passo à frente, quando sou um corpo estático. Quando permaneço sob a condição de um tripé – inerte, equilibrado -, com medo de quebrar a terceira perna e, para não cair, dar o primeiro passo e depois o outro e depois o outro e depois o outro... Porque nem sempre estar em equilíbrio é estar bem.
É por isso que brinco de ser. É por isso que eu sou um ator. Mas isso não me basta. Brincar de ser não é ser verdadeiramente. Então, ando por aí, me mutilando a aparência, o pensamento. Sufocando algumas vontades, libertando outras pessoas de dentro de mim, estuprando a ingenuidade e a pureza-nossa-de-cada-dia. Ando por aí me jogando no mundo, aviltando meus princípios, reinventando uma maneira cínica de estar vivo. De sobre-sair nessa massa densa que é o mundo.


Quero ser perceptível até aos olhos dos cegos. Quero caber no universo - meu corpo não é o meu número. Minha língua é maior do que a minha boca e as palavras não aguentam dentro dela. Sou maior do que eu mesmo. Sou uma hipérbole-interjeição-tropical. Luto contra mim porque sou meu próprio inimigo. Mas também sou meu herói.
Sou um fracasso como artista quando não sou o avesso do avesso.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

dissonante

[Diálogos diversos interrompidos. Ao passar do tempo, todos os diálogos são ouvidos simultaneamente]
...qualquer uma! Desde que bem gelada...
...ahahahahahahahaahahahahahahahahahah...
...Lembra daquela morenaça que te falei?...
...é, o trânsito essa hora..
...ah, uma vez, só pra experimentar...
... cara, acho que não...
...foi uma situação bem, assim...
...mas é claro que eu...
...não, aí ele me disse que estava...
...ai, menina, tu não sabe o que aconteceu ontem...
...lembra daquela vez que...
...você fuma?...
...sem colarinho...
...meteu três, três gols no teu time...
[Pausa. Desliga-se. Pensativo. Bebe e pensa. Olha e fala]
Engraçado. Com você não. Com outras pessoas. Descobri uma coisa hoje. Na verdade, já havia descoberto, mas não reconhecido. Não consigo encarar  as pessoas, nos olhos. Meus olhos são duas esferas fugidias. Dois planetas fora de órbita. Incessante no movimento. Olho tudo ao meu redor, mas não olho nada também. Sei lá, vai ver é o medo de me descobrirem e arrancarem do meu corpo cínico um eu que nem mesmo conheço. Mas me reconheço, sabe?
[pausa]
Os olhos são o ponto fraco do homem. Por mais rígido que seja o homem, são nos olhos onde se concentram todas as fraquezas, defeitos.A gente se esconde por detrás dos olhos. Úmidos e frágeis, os olhos são o que são. Meu corpo todo forja uma maneira de ser o que a sociedade espera. E é nesta espera que fica represada todas as minhas  fragilidades. Todo o meu câncer. Eu por inteiro.  [micro-pausa] Eu sou um câncer em mim. [pausa seguida de silêncio pesado]
Tem vezes que olho. Encaro. Mas visto outros olhos. Não vejo, Não me vejo. Na maioria das vezes não sou eu em mim. Mas, tudo bem. Quem realmente é? Tá, não precisa responder. É retórica. E retórica é essa vida, mesmo. Oi? Não prestei atenção no que você falou. Desculpa. Ah, sim, quero mais um copo.
[coloca os óculos escuros, enquanto o outro age com estranheza]
É melhor. Vou colocar os óculos escuros. Sei que são duas e oito da manhã, mas é por precaução. Não quero te assustar com meus tumores radioativos. Chega de leitura radiográfica da alma. Pronto, bloqueei a minha passagem. Mas, então, qual a sua música favorita?